É 1981. Uma idéia velha, surgida quase um século antes volta à baila. Com o petróleo subindo fortemente de preço, na esteira de tensões no Oriente Médio, visionários começam a escarafunchar a literatura técnica e a fazer testes empíricos para tentar encontrar combustíveis renováveis, que pudessem ser produzidos em massa e substituir derivados de petróleo. Logo alguém encontra um velho livro, de 1913, escrito por Rudolf Diesel, polêmico engenheiro alemão que inventara o motor Diesel. Havia trechos proféticos: ?No futuro, países com grandes áreas agricultáveis, clima ameno, sol o ano inteiro, água em abundância, mão-de-obra em quantidade e a custos economicamente justificáveis, teriam grandes vantagens em usar óleos vegetais como combustíveis para os motores de minha concepção?.
O Brasil estava em estado de choque. O petróleo importado, mais caro a cada dia, causava grave desequilíbrio do balanço de pagamentos. Só 10% do petróleo consumido pelo país eram produzidos em casa. Com o álcool substituindo gasolina e as refinarias trabalhando no limite para otimizar a produção de diesel, o governo lembrou da idéia de Rudolf Diesel. Logo surgiram propostas ingênuas de modificar os motores. Mas testes conclusivos da indústria automobilística demonstraram que óleo vegetal "in natura", tal como extraído das plantas, causava transtornos graves aos motores, ao meio ambiente e ao bolso dos consumidores.
Afinal, qual é o problema?
Todo óleo vegetal ? há quase 200 deles ? é constituído de alguns tijolinhos moleculares específicos, os chamados ácidos graxos. Estes apresentam estruturas moleculares levemente diferentes entre si o que confere a cada óleo algumas características únicas quanto a suas propriedades fisico-químicas. São essas propriedades ? entre outras ? que por fim determinam o comportamento dos óleos quando se tenta queimá-los como se fossem diesel.
Rudolf Diesel não sabia é que seus motores, antes operados com óleo de baleia e de fígado de bacalhau, betume e várias misturas combustíveis, passariam anos mais tarde a utilizar o que se chama óleo diesel, um derivado médio do petróleo, além de ser totalmente modificados em seus princípios de operação. Ao profetizar o futuro com óleos vegetais, Diesel deu apenas um "palpite". Nem se fosse possível voltar aos motores primitivos haveria um modo de fazê-los funcionar com óleos de salada doméstica.
Desde os tempos imemoriais dos sumérios existia um processo simples para fabricar sabão: processar uma gordura, vegetal ou animal, na presença de uma substância alcalina, pela qual se obtinha a separação da glicerina. A glicerina é quimicamente um triálcool. Se ao processar a mesma reação se agregar outro álcool (metanol ou etanol), este se liga quimicamente aos ácidos graxos, formando moléculas estáveis, gerando três ésteres conforme a fonte do óleo em bruto. Essa segunda forma de processamento se chama transesterificação, tendo como subproduto a glicerina e outros resíduos. Nessa operação usam-se 17% de álcool em relação ao volume de ésteres resultantes.
Óleo vegetal transesterificado, após processado num reator, torna-se o chamado biodiesel e tem, assim, amenizadas as propriedades indesejáveis que impedem seu uso "in natura" como combustíveis. Mas essa operação não é algo trivial que possa ser feita facilmente no sítio de um agricultor, em pequena escala e com aparatos simples. Exige aparelhagem complexa, em condições estritamente controladas, para que o produto final não contenha glicerina residual, ácidos reativos ainda livres, sabões metálicos, gomas, flocos, borras e outras impurezas que poderiam formar depósitos, atacar peças, contaminar o óleo lubrificante, entupir filtros e galerias internas dos motores e gerar emissões perigosas como a acroleína. Algo impensável.
Festival de espécies oleaginosas
Não existe cabimento em desenvolver um programa nacional de biodiesel usando para isso dezenas de opções, como o governo propõe. Simplesmente porque com uma composição de ácidos graxos diversos, dependendo da espécie vegetal, do clima da região, da umidade e até da composição dos solos, os ésteres resultantes teriam características físico-químicas totalmente diferentes.
Na Europa, o biodiesel usa uma única fonte, a colza ou canola. Empresas processadoras de óleos vegetais providenciam o descarte adequado das frações indesejáveis e provêem uniformidade técnica para o produto final. Depois o entregam às refinarias de petróleo para ser adicionado ao diesel. A glicerina removida, na Europa, já ocupou praticamente toda a demanda internacional para essa matéria prima. A produção em grande escala já é um problema preocupante porque requer descarte não-remunerado. Nos Estados Unidos, o projeto do biodiesel será inteiramente feito com base no óleo de soja. Lá também há visionários advogando uma enorme variedade de plantas, mas a diferença é que ninguém os leva a sério.
Jamais se imaginou seguir vocações regionais, dentre os países da União Européia, para que um use colza, outro milho, soja ou girassol. Isso impediria o abastecimento confiável de caminhões, ônibus e picapes que operam em todos os países. A razão de usar uma só espécie é ter um combustível idêntico em suas especificações técnicas, para que não seja preciso recalibrar os motores, afastando dificuldades sérias como as apresentadas pelos óleos "in natura".
No Brasil, o biodiesel é visto como um programa de boas intenções, como ferramenta de distribuição de renda mínima e incentivo social para fixação do homem à terra. Só que não dá para imaginar um veículo abastecido no Paraná com ésteres metílicos derivados de soja, isto é, biodiesel em mistura com diesel comum, viajar até Minas Gerais, sendo reabastecido com ésteres etílicos de mamona e diesel, e prosseguir viagem utilizando ésteres metílicos ou etílicos de dendê no Pará.
Um programa com sérios riscos
O que atenta contra a racionalidade do atual programa brasileiro de biodiesel nem é o excesso de alternativas. Tomemos o óleo de dendê como exemplo. Ele possui alto valor no mercado internacional, de quatro a cinco vezes mais caro em relação ao derivado de petróleo. É bastante utilizado como lubrificante tópico em operações que envolvem processamento ou beneficiamento de metais. Queimá-lo como combustível não parece racional já que utilizá-lo como preciosa matéria prima seria bem mais vantajoso. Além disso, a primeira safra ocorre entre 7 e 11 anos depois da plantação.
O óleo de mamona está muito mais para lubrificante do que para combustível. A elevada viscosidade dos ésteres resultantes não recomenda seu uso sem forte tratamento após a transesterificação. Também se trata de um produto nobre. Estudos mundiais revelaram ser possível sintetizar substâncias compostas que servem para fabricar ossos artificiais que não são rejeitadas pelo corpo humano. O alto valor de mercado advém ainda da aplicação na síntese de materiais plásticos, tintas para off-set, lubrificantes em aparatos de mecânica fina e até em cápsulas de remédio. Vamos queimar isso num motor?
O biodiesel nos termos atuais gera belos discursos, porém sem passar por testes que garantam que a idéia de multifontes funciona. A probabilidade de problemas é muito alta. O consumo de óleo diesel no Brasil hoje alcança cerca de 40 bilhões de litros por ano. E se o prometido crescimento econômico vingar, esse consumo vai aumentar de modo rápido e inexorável. Só para fazer a mistura de 2% ao diesel há necessidade de produzir 800 milhões de litros de biodiesel a partir de 900 milhões de litros de algum óleo vegetal bruto a ser processado. Para 5% de mistura (também obrigatória por lei) serão necessários 2 bilhões de litros de biodiesel (2,2 bilhões de óleo bruto) para o consumo atual de diesel. Também é preciso haver álcool suficiente para realizar a transesterificação. O uso crescente de álcool nos motores flex e a cotação elevada do açúcar no mercado externo são complicadores.
Dos cento e tantos óleos ?em estudo? somente o de soja preenche o requisito de já ser produzido em altos volumes. Simplesmente porque é um produto do agronegócio organizado, de grande porte, com tecnologia de ponta, políticas fitossanitárias adequadas, responsabilidade em defensivos agrícolas e ampla mecanização das colheitas. A infra-estrutura de transporte ainda deixa a desejar no atendimento aos pólos de produção. Não há, porém, excedentes dessa commodity. Tudo é colocado no mercado local e internacional.
Pró-soja que nunca houve
O Brasil nunca montou um "Pró-soja" ou qualquer tipo de subsídio para sua cultura. Ainda assim, é o segundo produtor mundial. Deu certo apesar das ineficiências do governo. O melhor adubo da terra é o preço, e no caso da soja vinha sendo suficiente, embora tenha caído fortemente nos últimos tempos. Para que se monte um ?Proazeite? no Brasil é preciso acalmar os ânimos na agricultura. As máquinas que recentemente obstruíram o tráfego em rodovias federais pelo clamor dos produtores são as mesmas que teriam de ser usadas para produzir os milhões de toneladas de soja para tornar o biodiesel uma realidade. O descrédito em medidas governamentais é a maior ameaça à produção em larga escala.
Esse realismo objetivo não consegue derrubar as barreiras que têm justificado o projeto de apoio do governo ? a fundo quase perdido ? ao produtor artesanal. Salvo se ocorresse um preço de petróleo incapacitante, que compensasse o desvio da soja da exportação para a produção emergencial de combustível. Se, ao invés de recorrer à agricultura amadora, o projeto do biodiesel focalizasse as fontes profissionais do óleo, seguiria a trilha de sucesso do Proálcool. Até porque um programa dessa ordem é um desafio logístico e tecnológico de enormes proporções.
Hbio, uma novidade?
Ainda ao final da década de 1970, uma pequena refinaria de Manaus, hoje pertence à Petrobrás, fez uma experiência interessante. Adicionou certa quantidade de óleo de soja degomado à carga de uma refinaria convencional de petróleo. O resultado foi curioso, pois a mistura, embora longe do ideal, até funcionava bem em termos práticos. A experiência não foi adiante porque os catalisadores usados no processo de refino exigiam reposição caríssima. Há pouco a Petrobrás anunciou um projeto parecido com o de Manaus. Duas refinarias, a partir de 2007, estariam sendo preparadas para fazer essa destilação consorciada com hidrogenação e saturação de cargas de petróleo e óleo vegetal bruto, para obter o tal Hbio, no caso exclusivamente de soja. Se der certo, outras refinarias entram na história. A empresa informa ainda que o produto é "equivalente" e "complementar" ao biodiesel brasileiro.
Com base nas experiências passadas, talvez o Hbio chegue a ser factível, se houver estudos aprofundados sobre seus efeitos técnicos. Mas seria preciso aguardar para saber, de fato, quanto valeria posto no tanque do usuário e se afetaria a dirigibilidade dos veículos. Por enquanto, a novidade tem gosto de "dèjá vu". Seria ótimo que desse certo, porque aí aquele ?outro? biodiesel poderia ser remetido direto para o crematório.
Texto Original
__________________________________
Cezar de Aguiar, físico, foi presidente da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva, por quatro mandatos não-consecutivos, e vice-presidente mundial da Fisita - Fédèration Internationale des Ingénieurs des Techniques de l´Automobile. É presidente da Tecknowledge International, transnacional especializada em tecnologia automotiva, ambiental e energética
terça-feira, 16 de janeiro de 2007
Começa o futuro da energia verde na Itália
Nesta semana, ao mesmo tempo em que a União Européia estabelecia o objetivo mínimo de de 10% para o mercado de biocombustíveis até 2020, a Itália lançava o seu mais audacioso plano para a produção de biodiesel, com o objetivo inicial de atingir, neste ano, 70 mil hectares de cultivos destinados à produção de bioenergia e, até 2010, 240 mil hectares, um passo fundamental para cumprir os compromissos do Protocolo de Kioto.
16/01/07
Oriundi
Com esse primeiro acordo, que envolve o Governo e entidades produtivas agrícolas – como a Coldiretti, C.i.a, Confagricoltora, Copagri, Unione Seminativa, Assitol e Assocostieri, o ministro da Política Agrícola, Alimentar e Florestal, Paolo De Castro, foi enfático ao afirmar que "il futuro dell’energia verde è finalmente cominciato" na Itália.
Na verdade, a partir das definições do Orçamento (Finanziaria) 2007, o Governo italiano já fixou os recursos a serem destinados a favor da produção e da gestão da energias alternativa. Para tanto, o plantio da colza terá um papel fundamental. Segundo dados da Comissão Européia, a Itália está entre os países que apresentam melhores cotas na utilização de biocombustiveis, embora o percentual ainda seja reduzido – 0,5%
Na verdade, na Diretiva Biocombustíveis adotada em 2003, a Europa fixou os objetivos de substituição de 2% da gasolina e do óleo diesel nos transportes por biocombustíveis até 2005 e, de 5,75%, até 2010. O objetivo para 2005 não foi atingido. Espera-se progressos substanciais para 2010, mas não serão suficientes para atingir o objetivo fixado para 2010. Por conseguinte, a Comissão propôs o reforço do quadro legislativo, com uma quota mínima de 10% para o mercado de biocombustíveis em 2020
16/01/07
Oriundi
Com esse primeiro acordo, que envolve o Governo e entidades produtivas agrícolas – como a Coldiretti, C.i.a, Confagricoltora, Copagri, Unione Seminativa, Assitol e Assocostieri, o ministro da Política Agrícola, Alimentar e Florestal, Paolo De Castro, foi enfático ao afirmar que "il futuro dell’energia verde è finalmente cominciato" na Itália.
Na verdade, a partir das definições do Orçamento (Finanziaria) 2007, o Governo italiano já fixou os recursos a serem destinados a favor da produção e da gestão da energias alternativa. Para tanto, o plantio da colza terá um papel fundamental. Segundo dados da Comissão Européia, a Itália está entre os países que apresentam melhores cotas na utilização de biocombustiveis, embora o percentual ainda seja reduzido – 0,5%
Na verdade, na Diretiva Biocombustíveis adotada em 2003, a Europa fixou os objetivos de substituição de 2% da gasolina e do óleo diesel nos transportes por biocombustíveis até 2005 e, de 5,75%, até 2010. O objetivo para 2005 não foi atingido. Espera-se progressos substanciais para 2010, mas não serão suficientes para atingir o objetivo fixado para 2010. Por conseguinte, a Comissão propôs o reforço do quadro legislativo, com uma quota mínima de 10% para o mercado de biocombustíveis em 2020
Biodiesel vai ‘evoluir’ até final do ano
“O biodiesel deixou de ser um sonho e agora é realidade”. A definição de Gian Marques, especialista em combustíveis e lubrificantes da SAE Brasil (entidade que reúne engenheiros do setor automotivo) pode ser comprovada em quase todo posto de gasolina do país. Na maioria dos estabelecimentos já se lêem faixas cujas palavras variam, mas querem sempre passar a mesma mensagem: “nós temos biodiesel.”
Hoje o que se vê nos bicos das mangueiras de diesel é o mesmo óleo derivado de petróleo, mas com algo a mais. Na composição, 2% de produto vegetal, que pode ser processada de uma gama de opções que passa pela soja, mamona e algodão, para citar alguns exemplos.
De acordo com Marques, o próximo passo é aumentar essa composição de 2% (B2) para 5% (o B5). O novo patamar de participação do biodiesel no diesel tradicional deve ser concluído, obrigatoriamente, até 2013 – data limite estipulada pelo governo federal.
O especialista diz que a pesquisa do combustível está indo de vento em popa. “A indústria tem realizado testes com o B5 e até o momento vem sendo bastante positivos”, conta Marques. “As expectativas ainda são que até o final desse ano já seja possível concluir as pesquisas e implantar o combustível com 5% de biodiesel sem danos para os motores.” O governo, atento ao avanço rápido da tecnologia, já estuda antecipar para 2010 a obrigatoriedade do B5.
E depois disso? “Do ponto de vista tecnológico é possível que seja possível superar os 5%. Acredito que seja possível chegar até 20% de material vegetal sem nenhum tipo de perda de desempenho do motor”, diz o especialista.
Além disso, é preciso que o combustível em desenvolvimento possa ser usado por veículos atuais. “A gente tem de pensar que a frota de caminhões tem em média 18 anos e de ônibus, 15. Temos de fazer um combustível que sirva para esses veículos”, diz Marques.
“Conforme a frota se renova, com tecnologias mais avançadas, é possível progredir com a composição do diesel.”
Assim, o biodiesel tem todos os motivos para ser a vedete da indústria e do governo.“O biodiesel tem bastante potencial de sucesso, principalmente pela capacidade ímpar que o Brasil tem de extrair combustível de biomassa”, diz Marques. Haja vista a experiência do álcool, o maior sucesso na área de biocombustíveis.
Daniel Trielli Do Diário do Grande ABC
Hoje o que se vê nos bicos das mangueiras de diesel é o mesmo óleo derivado de petróleo, mas com algo a mais. Na composição, 2% de produto vegetal, que pode ser processada de uma gama de opções que passa pela soja, mamona e algodão, para citar alguns exemplos.
De acordo com Marques, o próximo passo é aumentar essa composição de 2% (B2) para 5% (o B5). O novo patamar de participação do biodiesel no diesel tradicional deve ser concluído, obrigatoriamente, até 2013 – data limite estipulada pelo governo federal.
O especialista diz que a pesquisa do combustível está indo de vento em popa. “A indústria tem realizado testes com o B5 e até o momento vem sendo bastante positivos”, conta Marques. “As expectativas ainda são que até o final desse ano já seja possível concluir as pesquisas e implantar o combustível com 5% de biodiesel sem danos para os motores.” O governo, atento ao avanço rápido da tecnologia, já estuda antecipar para 2010 a obrigatoriedade do B5.
E depois disso? “Do ponto de vista tecnológico é possível que seja possível superar os 5%. Acredito que seja possível chegar até 20% de material vegetal sem nenhum tipo de perda de desempenho do motor”, diz o especialista.
Além disso, é preciso que o combustível em desenvolvimento possa ser usado por veículos atuais. “A gente tem de pensar que a frota de caminhões tem em média 18 anos e de ônibus, 15. Temos de fazer um combustível que sirva para esses veículos”, diz Marques.
“Conforme a frota se renova, com tecnologias mais avançadas, é possível progredir com a composição do diesel.”
Assim, o biodiesel tem todos os motivos para ser a vedete da indústria e do governo.“O biodiesel tem bastante potencial de sucesso, principalmente pela capacidade ímpar que o Brasil tem de extrair combustível de biomassa”, diz Marques. Haja vista a experiência do álcool, o maior sucesso na área de biocombustíveis.
Daniel Trielli Do Diário do Grande ABC
Bahia tem vocação natural para o biodiesel
Com forte aptidão para a produção do biodiesel, a Bahia ganha duas usinas e ainda possui áreas para produzir o petróleo verde.
O Biodiesel é um projeto estratégico do Brasil e que encontra na Bahia uma vocação natural para desenvolvê-lo. Combustível de queima limpa, o biodiesel é um produto do óleo extraído de algumas plantas, capaz de proporcionar o desenvolvimento social e econômico da Bahia, estado que ocupa a posição de líder isolado da produção nacional de mamona (92%), possuindo ainda uma grande plantação de soja. As duas plantas podem dar origem ao “petróleo verde”, bem como ao dendê e algodão. Também chamado de "petróleo verde", o combustível reduz a poluição atmosférica e serve como alternativa de energia renovável e infinita, qualidades bem diferentes do petróleo.
Além de proporcionar benefícios ambientais, o biodiesel também possibilita a geração de empregos diretos e indiretos, promove a inclusão social e o desenvolvimento da agricultura nas zonas rurais menos favorecidas. Com base no zoneamento realizado pela Embrapa, constatou-se que a Bahia possui grande potencial para a expansão do cultivo da mamona. Dos 452 municípios que apresentam esse produto na região Nordeste, 189 (41,8%) localizam-se no estado baiano. A tendência de crise relacionada aos combustíveis fósseis não renováveis aponta para o uso das energias alternativas como foi o caso do álcool.
No dia 28 de dezembro, foi realizado o Primeiro Encontro de Biodiesel de Jequié e Região, quando foi discutido com os presentes a importância da produção do biodiesel através da agricultura familiar. Um mês antes, o II Fórum Regional do Biodiesel em Guanambi teve como tema O Biodiesel e a Inclusão Social.
Emprego e renda
Recentemente, a Petrobras assinou um contrato para a construção da sua primeira unidade de biodiesel, em Candeias. A usina, que vai custar cerca de R$ 78 milhões, deverá produzir 57 milhões de litros do combustível ao ano. A cidade foi escolhida por diversos fatores, dentre eles o mercado consumidor e a localização privilegiada em relação aos meios de transporte rodoviário, ferroviário e marítimo. A unidade vai gerar emprego e renda para aproximadamente 25 mil famílias de agricultores da região.
Já o município de Iraquara foi escolhido pela empresa Brasil Ecodiesel para a construção de uma fábrica para a produção de 80 milhões de litros de biodiesel por ano, utilizando como matéria-prima a mamona, o algodão e o girassol. Metade desses insumos será adquirida de 30 mil agricultores familiares, para quem a empresa destinará cerca de R$ 25 milhões. Serão gerados de 100 a 120 empregos diretos.
Pinhão-manso
Outra planta que desponta no cenário baiano como fonte geradora do biodiesel é o pinhão-manso. As vantagens do cultivo desta planta oleaginosa já estão sendo estudadas na Bahia pela Indústria Brasileira de Resinas (IBR), que tem um projeto em fase de instalação para o plantio de mais de mil hectares de pinhão e produção do combustível vegetal na cidade de Jacobina. Também há estudos da possibilidade do emprego da planta em projetos voltados para a produção do biodiesel em Andorinhas.
Estudos indicam que, além de produzir sementes oleaginosas, o pinhão-manso pode ser utilizado como substituto do arame nas cercas-vivas, sendo invulnerável aos pequenos e grandes animais, que se afastam da planta devido ao seu látex cáustico. Serve ainda para conservar o solo, reduzindo a erosão e a perda de água por evaporação.
Segundo os pesquisadores, o pinhão-manso é uma lavoura perene, que pode render ao agricultor de cinco a oito vezes mais que o leite ou outras culturas, podendo ser em consorciação com lavouras de milho e feijão.
Dentro de alguns anos, o biodiesel será uma alternativa real de renovação da matriz energética nacional e na Bahia esta realidade já vem dando, literalmente, bons frutos. Seja através do dendê, da mamona ou da soja, o estado mais uma vez mostra sua força. Com mais investimentos na área, o biodiesel gerado na Bahia aquecerá a economia, gerando emprego e renda para o povo baiano e, o que é melhor, sem agredir o meio ambiente.
Probiodiesel
O projeto Probiodiesel estimula a agroenergia no estado através do incentivo aos empresários. Ele foi apresentado no Congresso Bioenergy World Américas, realizado no final do ano passado no Fiesta Convention Center. Segundo o projeto, a Bahia poderá chegar a produzir cerca de 105 milhões de litros de biodiesel entre o final de 2007 e o início de 2008. “A Bahia é um Brasil em miniatura. Aqui nós temos diferentes tipos de solo e climas, o que nos dá a possibilidade de explorar diferentes oleaginosas. Poucos estados brasileiros têm a possibilidade de cultivar mais de quatro produtos diferentes voltados a produção de biodiesel”, afirmou o diretor de fortalecimento tecnológico empresarial da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti), Roberto Fortuna.
O diretor afirma ainda que o Baixo Sul, Semi-Árido e Oeste são regiões baianas com grande potencial para este tipo de produção e se tudo der certo a Bahia poderá, dentro dos próximos anos, chegar a produzir anualmente 300 milhões de litros de biodiesel, o que deverá beneficiar 103 mil famílias. Para ele Roberto Fortuna, a Bahia tem possibilidades de fornecer seus produtos por diversos caminhos: terminal marítimo de Madre de Deus, caminhos fluviais, dutovias e rodovias. Além disso, as universidades baianas (Estadual de Santa Cruz, Federal de Feira de Santana e Federal da Bahia) possuem grupos de pesquisas e laboratórios que contribuem para os avanços relacionados a bioenergia.
Fonte: Agora On Line
O Biodiesel é um projeto estratégico do Brasil e que encontra na Bahia uma vocação natural para desenvolvê-lo. Combustível de queima limpa, o biodiesel é um produto do óleo extraído de algumas plantas, capaz de proporcionar o desenvolvimento social e econômico da Bahia, estado que ocupa a posição de líder isolado da produção nacional de mamona (92%), possuindo ainda uma grande plantação de soja. As duas plantas podem dar origem ao “petróleo verde”, bem como ao dendê e algodão. Também chamado de "petróleo verde", o combustível reduz a poluição atmosférica e serve como alternativa de energia renovável e infinita, qualidades bem diferentes do petróleo.
Além de proporcionar benefícios ambientais, o biodiesel também possibilita a geração de empregos diretos e indiretos, promove a inclusão social e o desenvolvimento da agricultura nas zonas rurais menos favorecidas. Com base no zoneamento realizado pela Embrapa, constatou-se que a Bahia possui grande potencial para a expansão do cultivo da mamona. Dos 452 municípios que apresentam esse produto na região Nordeste, 189 (41,8%) localizam-se no estado baiano. A tendência de crise relacionada aos combustíveis fósseis não renováveis aponta para o uso das energias alternativas como foi o caso do álcool.
No dia 28 de dezembro, foi realizado o Primeiro Encontro de Biodiesel de Jequié e Região, quando foi discutido com os presentes a importância da produção do biodiesel através da agricultura familiar. Um mês antes, o II Fórum Regional do Biodiesel em Guanambi teve como tema O Biodiesel e a Inclusão Social.
Emprego e renda
Recentemente, a Petrobras assinou um contrato para a construção da sua primeira unidade de biodiesel, em Candeias. A usina, que vai custar cerca de R$ 78 milhões, deverá produzir 57 milhões de litros do combustível ao ano. A cidade foi escolhida por diversos fatores, dentre eles o mercado consumidor e a localização privilegiada em relação aos meios de transporte rodoviário, ferroviário e marítimo. A unidade vai gerar emprego e renda para aproximadamente 25 mil famílias de agricultores da região.
Já o município de Iraquara foi escolhido pela empresa Brasil Ecodiesel para a construção de uma fábrica para a produção de 80 milhões de litros de biodiesel por ano, utilizando como matéria-prima a mamona, o algodão e o girassol. Metade desses insumos será adquirida de 30 mil agricultores familiares, para quem a empresa destinará cerca de R$ 25 milhões. Serão gerados de 100 a 120 empregos diretos.
Pinhão-manso
Outra planta que desponta no cenário baiano como fonte geradora do biodiesel é o pinhão-manso. As vantagens do cultivo desta planta oleaginosa já estão sendo estudadas na Bahia pela Indústria Brasileira de Resinas (IBR), que tem um projeto em fase de instalação para o plantio de mais de mil hectares de pinhão e produção do combustível vegetal na cidade de Jacobina. Também há estudos da possibilidade do emprego da planta em projetos voltados para a produção do biodiesel em Andorinhas.
Estudos indicam que, além de produzir sementes oleaginosas, o pinhão-manso pode ser utilizado como substituto do arame nas cercas-vivas, sendo invulnerável aos pequenos e grandes animais, que se afastam da planta devido ao seu látex cáustico. Serve ainda para conservar o solo, reduzindo a erosão e a perda de água por evaporação.
Segundo os pesquisadores, o pinhão-manso é uma lavoura perene, que pode render ao agricultor de cinco a oito vezes mais que o leite ou outras culturas, podendo ser em consorciação com lavouras de milho e feijão.
Dentro de alguns anos, o biodiesel será uma alternativa real de renovação da matriz energética nacional e na Bahia esta realidade já vem dando, literalmente, bons frutos. Seja através do dendê, da mamona ou da soja, o estado mais uma vez mostra sua força. Com mais investimentos na área, o biodiesel gerado na Bahia aquecerá a economia, gerando emprego e renda para o povo baiano e, o que é melhor, sem agredir o meio ambiente.
Probiodiesel
O projeto Probiodiesel estimula a agroenergia no estado através do incentivo aos empresários. Ele foi apresentado no Congresso Bioenergy World Américas, realizado no final do ano passado no Fiesta Convention Center. Segundo o projeto, a Bahia poderá chegar a produzir cerca de 105 milhões de litros de biodiesel entre o final de 2007 e o início de 2008. “A Bahia é um Brasil em miniatura. Aqui nós temos diferentes tipos de solo e climas, o que nos dá a possibilidade de explorar diferentes oleaginosas. Poucos estados brasileiros têm a possibilidade de cultivar mais de quatro produtos diferentes voltados a produção de biodiesel”, afirmou o diretor de fortalecimento tecnológico empresarial da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti), Roberto Fortuna.
O diretor afirma ainda que o Baixo Sul, Semi-Árido e Oeste são regiões baianas com grande potencial para este tipo de produção e se tudo der certo a Bahia poderá, dentro dos próximos anos, chegar a produzir anualmente 300 milhões de litros de biodiesel, o que deverá beneficiar 103 mil famílias. Para ele Roberto Fortuna, a Bahia tem possibilidades de fornecer seus produtos por diversos caminhos: terminal marítimo de Madre de Deus, caminhos fluviais, dutovias e rodovias. Além disso, as universidades baianas (Estadual de Santa Cruz, Federal de Feira de Santana e Federal da Bahia) possuem grupos de pesquisas e laboratórios que contribuem para os avanços relacionados a bioenergia.
Fonte: Agora On Line
UE garante que está promovendo biocombustíveis
A comissária para a Agricultura e Desenvolvimento Rural, a dinamarquesa Mariann Fischer Boel, garantiu em Copenhaga que a União Europeia está a promover os biocombustíveis. Apesar dos fracos resultados, acredita que será alcançada a meta dos dez por cento de biocombustíveis em 2020.
Falando sexta-feira na conferência “Parte da Solução: biocombustíveis na UE”, Boel disse que este tipo de combustíveis “são a nossa única verdadeira esperança para reduzir, significativamente, a dependência do petróleo no sector dos transportes nos próximos 15 anos”.
Actualmente, a UE importa 50 por cento da energia que precisa mas, em 2030, essa dependência pode chegar aos 65 por cento, lembrou a comissária.
“Já passámos da primeira página do primeiro capítulo” mas, apesar de termos as políticas, ainda “não chegámos onde queríamos”, alertou Boel, lamentando que os biocombustíveis sejam a forma de energia renovável mais cara. “Claramente, é preciso fazer mais. E, de facto, já estamos a agir”.
Boel referiu a Directiva dos Biocombustíveis de 2003 e o Plano de Acção para a Biomassa, de 2005. Também a Política Agrícola Comum contribui para atingir a meta dos biocombustíveis, nomeadamente, ao prever ajudas específicas ao cultivo de espécies agrícolas utilizadas na produção destes produtos.
A comissária salientou ainda os avanços científicos sobre biocombustíveis de segunda-geração.
Em 2005, a UE produziu cerca de quatro milhões de toneladas de biodiesel e bioetanol, quando em 2004 esse número foi de 2,4 milhões. Para o futuro, a Comissão deverá importar biocombustíveis de produções sustentáveis.
A Comissão Europeia quer que, em 2020, a UE obtenha 20 por cento da sua energia a partir de fontes renováveis. Actualmente, a percentagem é de menos de sete por cento.
Fonte: PUBLICO.PT 15.01.2007 - 20h58
Falando sexta-feira na conferência “Parte da Solução: biocombustíveis na UE”, Boel disse que este tipo de combustíveis “são a nossa única verdadeira esperança para reduzir, significativamente, a dependência do petróleo no sector dos transportes nos próximos 15 anos”.
Actualmente, a UE importa 50 por cento da energia que precisa mas, em 2030, essa dependência pode chegar aos 65 por cento, lembrou a comissária.
“Já passámos da primeira página do primeiro capítulo” mas, apesar de termos as políticas, ainda “não chegámos onde queríamos”, alertou Boel, lamentando que os biocombustíveis sejam a forma de energia renovável mais cara. “Claramente, é preciso fazer mais. E, de facto, já estamos a agir”.
Boel referiu a Directiva dos Biocombustíveis de 2003 e o Plano de Acção para a Biomassa, de 2005. Também a Política Agrícola Comum contribui para atingir a meta dos biocombustíveis, nomeadamente, ao prever ajudas específicas ao cultivo de espécies agrícolas utilizadas na produção destes produtos.
A comissária salientou ainda os avanços científicos sobre biocombustíveis de segunda-geração.
Em 2005, a UE produziu cerca de quatro milhões de toneladas de biodiesel e bioetanol, quando em 2004 esse número foi de 2,4 milhões. Para o futuro, a Comissão deverá importar biocombustíveis de produções sustentáveis.
A Comissão Europeia quer que, em 2020, a UE obtenha 20 por cento da sua energia a partir de fontes renováveis. Actualmente, a percentagem é de menos de sete por cento.
Fonte: PUBLICO.PT 15.01.2007 - 20h58
Produção de matérias-primas para biodiesel deve ser mesclada
A produção brasileira de matérias-primas para o biodiesel deve diversificar sua matriz e apostar, primariamente, na agricultura industrial, com a agricultura familiar como complemento social. Essa é a conclusão de especialistas no assunto que foram consultados pelo BOM DIA.
Com uma demanda de mercado de aproximadamente 800 milhões de litros de biodiesel por ano, a produção familiar, principal aposta do governo, consegue suprir, hoje, apenas 6,25% desse total – ou seja, 50 milhões de litros do novo combustível.
A capacidade produtiva das usinas de biodiesel instaladas, contudo, poderia produzir cerca de 1,5 bilhão de litros, o que faria o país exportar o combustível. Não o faz por falta de material.
“Investir em agricultura familiar é responsável, mas não pode sustentar o projeto. Oleginosas como a soja, produzidas em larga escala, são essenciais para que o mercado seja suprido”, avalia Carlos Freitas, engenheiro especialista na produção de biodiesel.
Com experiência na produção do produto nos Estados Unidos, ele compara os dois modelos.
“Não acho que o modelo americano, 100% industrial, seja o ideal, nem o brasileiro, só familiar. Uma mescla entre o modelo industrial e o modelo familiar seria o ideal”, avalia o técnico.
Governo privilegia famílias
Privilegiar o desenvolvimento sustentável local e prover, por intermédio do projeto biodiesel, as famílias mais pobres com uma renda digna. A premissa, retirada do site oficial da Petrobras, que coordena os investimentos em biodiesel, dá o tom de como o governo encara a questão energética.
Em discurso durante a inauguração de uma usina de biodiesel na Bahia, o presidente Lula (PT) fez a seguinte declaração: “Nunca antes na história do Brasil houve um projeto tão completo para as famílias mais pobres do que a criação do biodiesel. E, com as famílias, o Brasil também evolui. Nossa agricultura familiar vai mover o mundo”.
Oleaginosa deve variar
O professor Miguel Dabdoub, da USP (Universidade de São Paulo), um dos pioneiros na pesquisa do biodiesel, acredita que a oleginosa para a produção do biodiesel pode variar de Estado para Estado, aproveitando melhor as potencialidades de cada região produtora.
“No Centro-Oeste, por exemplo, a soja deveria ser melhor aproveitada industrialmente. No Norte, a produção da palma poderia ser mais familiar. É errado estipular um só modelo”, diz.
A opinião é compartilhada por Duarte Nogueira (PSDB), ex-secretário paulista de Agricultura. “Nunca é bom investir apenas em uma matriz. A variação regional é importante.”
14/1/2007 Eduardo Schiavoni (Da Agência BOM DIA RP)
Com uma demanda de mercado de aproximadamente 800 milhões de litros de biodiesel por ano, a produção familiar, principal aposta do governo, consegue suprir, hoje, apenas 6,25% desse total – ou seja, 50 milhões de litros do novo combustível.
A capacidade produtiva das usinas de biodiesel instaladas, contudo, poderia produzir cerca de 1,5 bilhão de litros, o que faria o país exportar o combustível. Não o faz por falta de material.
“Investir em agricultura familiar é responsável, mas não pode sustentar o projeto. Oleginosas como a soja, produzidas em larga escala, são essenciais para que o mercado seja suprido”, avalia Carlos Freitas, engenheiro especialista na produção de biodiesel.
Com experiência na produção do produto nos Estados Unidos, ele compara os dois modelos.
“Não acho que o modelo americano, 100% industrial, seja o ideal, nem o brasileiro, só familiar. Uma mescla entre o modelo industrial e o modelo familiar seria o ideal”, avalia o técnico.
Governo privilegia famílias
Privilegiar o desenvolvimento sustentável local e prover, por intermédio do projeto biodiesel, as famílias mais pobres com uma renda digna. A premissa, retirada do site oficial da Petrobras, que coordena os investimentos em biodiesel, dá o tom de como o governo encara a questão energética.
Em discurso durante a inauguração de uma usina de biodiesel na Bahia, o presidente Lula (PT) fez a seguinte declaração: “Nunca antes na história do Brasil houve um projeto tão completo para as famílias mais pobres do que a criação do biodiesel. E, com as famílias, o Brasil também evolui. Nossa agricultura familiar vai mover o mundo”.
Oleaginosa deve variar
O professor Miguel Dabdoub, da USP (Universidade de São Paulo), um dos pioneiros na pesquisa do biodiesel, acredita que a oleginosa para a produção do biodiesel pode variar de Estado para Estado, aproveitando melhor as potencialidades de cada região produtora.
“No Centro-Oeste, por exemplo, a soja deveria ser melhor aproveitada industrialmente. No Norte, a produção da palma poderia ser mais familiar. É errado estipular um só modelo”, diz.
A opinião é compartilhada por Duarte Nogueira (PSDB), ex-secretário paulista de Agricultura. “Nunca é bom investir apenas em uma matriz. A variação regional é importante.”
14/1/2007 Eduardo Schiavoni (Da Agência BOM DIA RP)
segunda-feira, 15 de janeiro de 2007
Como produzir Biodiesel
O biodiesel pode ser produzido a partir de diversas matérias-primas, tais como óleos vegetais, gorduras animais, óleos e gorduras residuais, por meio de diversos processos. Pode também, ser usado puro ou em mistura de diversas proporções com o diesel mineral.
A evolução tecnológica dos últimos anos mostra tendências para a adoção da transesterificação com metanol e etanol como processo principal para o uso em mistura com o diesel. Justifica-se pela possibilidade de introdução na frota atual de veículos automotivos, sem nenhuma modificação dos motores.
A diversidade de matérias-primas, processos e usos é uma grande vantagem, mas cada caso precisa ser analisado de acordo com as suas especificidades.
Não existem obstáculos técnicos ou normativos para o início da utilização de biocombustíveis em adição ao diesel, mas sua utilização implica em disponibilidade de insumos, segurança no abastecimento, capacidade de abastecimento, capacidade de processamento pela indústria e integração final aos circuitos de distribuição.
A utilização do novo combustível depende, entre outros fatores, de uma relação positiva entre a energia consumida no processo de produção e a energia disponibilizada pelo combustível produzido. Por exemplo, no caso do etanol produzido a partir da cana-de-açúcar, essa relação é de 8,3 para um. Comparativamente, nos EUA, o etanol tem uma relação de apenas 1,3. No Brasil, alguns estudos efetuados para fins de biodiesel indicam uma relação de 1,4 no caso da soja, de aproximadamente, 5,6 no caso do dendê, e de 4,2 para a macaúba, o que confirma o potencial das palmáceas como fonte de matéria-prima, ou seja, maior produtividade e disponibilidade de resíduos de valor energético.
O uso do biodiesel reduz as emissões associadas ao diesel de base fóssil. Trata-se de um produto não tóxico e biodegradável. Estudos europeus com o diesel produzido da canola, concluíram que comparado ao diesel, o biodiesel puro reduz as emissões de gases de efeito estufa em 40 – 60%. As reduções no Brasil, a partir da soja, não seriam maiores.
Aspectos tecnológicos
Para converter óleos vegetais em combustíveis adequados, o processo predominante é a transesterificação em meio alcalino, onde se fazem reagir triglicérides com um álcool, etanol ou metanol, produzindo glicerina e ésteres dos ácidos graxos componentes do óleo vegetal. A diversidade de matérias-primas, óleos, e as alternativas de processo levam a diversos programas de pesquisa e desenvolvimento tecnológico.
A especificação do biodiesel para uso comercial é considerada uma etapa essencial para o desenvolvimento de programas de biodiesel, como atestam experiências européias e americanas. Nestas condições, mesclas de diesel com biodiesel adequadamente especificado, em teores até 20%, podem ser empregadas sem problemas operacionais ou de desempenhos em motores convencionais, sem qualquer ajuste ou modificação. Poucas exceções, limitam o emprego do biodiesel ao B5 (diesel mineral com teor de biodiesel de 5%), praticamente todos os fabricantes de motores matem a garantia de seus equipamentos quando operam com o B20 (diesel mineral com teor de biodiesel de 20%). Tais condições pressupõem sempre o atendimento da especificação do combustível. Cabe observar que a determinação dos teores de biodiesel no diesel ainda requer métodos laboratoriais sofisticados, ao contrário da avaliação dos teores de etanol na gasolina, que pode ser efetuada em campo com relativa facilidade.
No Brasil, a Portaria 255/2003 da Agência Nacional de Petróleo (ANP) estabeleceu uma especificação preliminar do biodiesel com algumas premissas considerando o uso em misturas até 20% (B20). São especificações similares à européia e a americana, com alguma flexibilização para atender as características das matérias-primas nacionais.
Aspectos ambientais
Proporcionalmente ao seu teor em uma mistura com diesel, o biodiesel promove uma redução das principais emissões associadas ao derivado de petróleo, com a exceção notável dos óxidos de nitrogênio (NOx). O incremento observado nas emissões desse poluente, não é elevado, 2% a 4% para o B20, mas deve ser considerado porque é um dos principais precursores do ozônio troposférico, atualmente, o mais grave problema da qualidade do ar na maior cidade brasileira (São Paulo/SP). O aumento das emissões de NOx associado ao biodiesel tem sido confirmado por muitos estudos. Sua atenuação tem sido sugerida com o uso de aditivos e alterações nos motores.
As emissões de gases do efeito estufa associadas ao biodiesel têm sido avaliadas na última década, nas condições européias, considerando o uso de colza e soja como matérias-primas e ésteres metílicos como o B10 e B20. Os resultados, expressos em biodiesel puro (B100), indicam reduções de 40% a 60% das emissões correspondentes ao diesel puro. Resultados mais recentes mostram variação ainda maior para éster metílico de colza, em função das condições de rotação de culturas, uso de fertilizantes e uso ou não da glicerina.
A redução das emissões de gases de efeito estufa pode ser relevante, contudo os valores monetários associados a possíveis créditos de carbono são ainda pequenos. Para valores de crédito entre US$ 1 e 5/tonelada de carbono avaliado, estes valores corresponderiam e cerca de 3% do custo da produção.
Aspectos econômicos
Para que seja possível estabelecer comparações, as alternativas de custo do biodiesel e do diesel mineral devem considerar os dois combustíveis sem impostos. Essas comparações devem, ainda, no caso do biodiesel, incluir todos os custos da produção agrícola e industrial. Não apenas custos operacionais, mas também, os custos relativos ao capital, custos da terra e, se for o caso, o custo dos assentamentos e suas benfeitorias. Em casos em que haja outras culturas consorciadas com a mamona, tipicamente da agricultura familiar, devem-se considerar todos os custos associados e seus retornos. Só assim é possível avaliar corretamente o valor do subsídio alocado ao diesel.
Os custos de produção do biodiesel dependem essencialmente do custo da matéria-prima, do óleo vegetal ou outra substancia graxa, e dos custos de processamento industrial, podendo subtrair-se os créditos de correntes da comercialização do glicerol.
Em geral, o custo do óleo vegetal corresponde à cerca de 85% do custo do biodiesel, quando este é produzido em plantas de alta capacidade. Há, portanto, interesse em reduzir os custos da matéria-prima e eventualmente, obter o material graxo a partir de rejeitos industriais: óleo de fritura usado, sebo e águas servidas.
Matérias-primas, tecnologia agrícola e disponibilidade de áreas no Brasil
Quanto às matérias-primas mais promissoras para utilização, deve-se referir aos estudos recentes da EMBRAPA, em 2003, para levantar os cultivos e as aptidões regionais. De uma forma geral, têm sido mencionados a soja para as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, a mamona para o Nordeste e o dendê para a região Amazônica.
Girassol, amendoim e outros também têm sido considerados. Igualmente, as Palmáceas tropicais são sempre mencionadas como viáveis e potenciais produtores de biodiesel. Alguns estudos apontam perspectivas interessantes para as oleaginosas aparentemente inusitadas e pouco citadas, como o abacate, com uma produtividade estimada em 1200 litros de biodiesel por hectare.
Muitas oleaginosas podem ser usadas para a produção de biodiesel. A área para suprir 5% do diesel B5 com oleaginosas locais, e usando apenas soja, dendê e mamona, seria cerca de 3 milhões de hectares. A área de expansão possível para grãos é de, pelo menos, 90 milhões de hectares. As áreas aptas para o dendê atingem, na Amazônia, cerca de 70 milhões de hectares, com alta aptidão em cerca de 40%.
A soja conta com uma base agrícola variada e tecnologia adequada, além de uma enorme experiência da produção como cultura extensiva, de grandes áreas. Utiliza 20 milhões de hectares e dispõe de 100 milhões de hectares aptos para expansão. Não há limitações nem técnicas, nem de áreas para suportar um programa de biodiesel para misturas.
O agronegócio da soja gera empregos diretos para 4,7 milhões de pessoas em diversos segmentos, de insumos, produção, transporte, processamento e distribuição, e nas cadeias produtivas de suínos e aves. Trata-se de uma produção de 52 milhões de toneladas em 20 milhões de hectares, no total, diretos e indiretos, quatro hectares por pessoa.
Na Europa e nos EUA, o custo do biodiesel é hoje, 1,5 a 3 vezes maior que o diesel mineral. Não há previsão de reduções importantes desse custo para o futuro. O biodiesel é justificado por externalidades positivas como o meio ambiente, geração de empregos, segurança e balanço de pagamentos. O mesmo ocorreria no Brasil; com exceção possível no caso da mamona ou algumas oleaginosas que poderiam evoluir muito com a pesquisa agrícola. Contudo, é preciso conhecer, de modo mais detalhado, os custos atuais e esperados no futuro. Além de valorizar externalidades positivas importantes como geração de empregos e renda, é importante dimensionar os níveis de subsídios necessários, decidir sobre a adequação, ou considerar alternativas.
A diferença entre custos de produção do diesel, sem impostos, e custos de oportunidade, que são os valores pagos no mercado internacional para os óleos vegetais, indica o valor do subsídio a ser pago diretamente ou por meio de renúncia fiscal. Mesmo no caso da soja, que conta com um subsídio mínimo, apenas a renúncia fiscal não seria suficiente para atingir o valor ideal para a incorporação do biodiesel como alternativa econômica ao óleo mineral.
Custos, custos de oportunidade e competitividade
Na Europa e nos Estados Unidos o custo do biodiesel é hoje uma e meia a três vezes maior que o diesel mineral. Não há previsão de reduções importantes desse custo no futuro. O biodiesel é justificado por externalidades positivas como o meio ambiente, geração de empregos, segurança e balanço de pagamentos. O mesmo ocorreria no Brasil; com exceção possível no caso da mamona ou algumas oleaginosas que poderiam evoluir muito com a pesquisa agrícola. Contudo, é preciso conhecer de modo mais detalhado, os custos atuais e esperados no futuro. Além de valorizar externalidades positivas importantes como a geração de renda e emprego, é importante dimensionar os níveis de subsídios necessários, decidir sobre adequação, ou considerar alternativas.
A diferença entre custos de produção do diesel, sem impostos, e custos de oportunidade, que são os valores pagos no mercado internacional para os óleos vegetais, indica o valor do subsídio a ser pago diretamente ou por meio de renúncia fiscal. Mesmo no caso da soja, que conta com um subsídio mínimo, apenas a renúncia fiscal não seria suficiente para atingir o valor ideal para a incorporação do biodiesel com alternativa econômica do óleo mineral.
Mercado para Biodiesel no Brasil
Com o sucedâneo do óleo diesel, o mercado potencial para o biodiesel é determinado pelo mercado do derivado de petróleo. A demanda total de óleo diesel no Brasil em 2002 foi da ordem de 39,2 milhões de metros cúbicos, dos quais 76% foram consumidos no setor de transporte, 16% no setor agropecuário e 5% para geração de energia elétrica nos sistemas isolados. A importação de diesel, em 2002, correspondeu a 16,3% do mercado e significou nos últimos anos um dispêndio anual da ordem de US$1,2 bilhão, sem considerar o diesel produzido com petróleo importado, cerca de 8% do total de diesel consumido.
No setor de transporte, 97% da demanda ocorre no modal rodoviário, ou seja, caminhões, ônibus e utilitários, já que no Brasil estão proibidos os veículos leves a diesel. Em termos regionais, o consumo de diesel ocorre principalmente, na região Sudeste (44%), vindo a seguir o Sul (20%), Nordeste (15%), Centro-Oeste (12%) e Norte (9%). O diesel para consumo veicular no Brasil pode ser diesel interior, com teor de enxofre de 0,35% ou o diesel metropolitano, com 0,20 de enxofre, que corresponde por cerca de 30% do mercado.
A geração de energia elétrica nos sistemas isolados da região Amazônica consumiu 530 mil metros cúbicos de diesel, distribuídos na geração de 2079 GWh, no Amazonas (30%), Rondônia (20%), Amapá (16%), Mato Grosso (11%), Pará (11%), Acre (6%), Roraima (3%), além de outros pequenos sistemas em outros estados. Esses números se referem a demanda de serviço público. Existem grandes consumidores privados de diesel para geração de energia elétrica como empresas de mineração localizadas na região Norte.
Como um exercício e sem considerar eventuais dificuldades de logística ou de produção, podem ser inicialmente considerados os seguintes mercados:
Uso de B5 no diesel metropolitano: 0,45 Mm3;
Uso de B5 no diesel consumido no setor agropecuário: 03,1 Mm3;
Uso de B5 em sistemas isolados: 0,10 Mm3;
Uso de B5 em todo mercado de diesel: 2,00 Mm3
Conclusões
- O uso do biodiesel reduz as principais emissões locais associadas ao diesel, de material particulado, monóxido de carbono, hidrocarbonetos, Sox - óxido de enxofre, exceto dos NOx – óxidos de nitrogênio (+2 a 4%, com o B20). É não-tóxico e biodegradável.
São características muito importantes para os centros urbanos no Brasil.
- No Brasil há um grande número de oleaginosas que poderiam ser usadas para produzir biodiesel. Considerando áreas a cultivar para suprir 5% da demanda de diesel (B5), com oleaginosas locais, de acordo com o zoneamento da EMBRAPA, e tomando simplificadamente, apenas a soja, dendê e mamona, estima-se uma necessidade de 3 milhões de hectares. A área de expansão possível para grãos é de 90 milhões de hectares. As áreas aptas para o dendê atingem, na Amazônia, cerca de 70 milhões de hectares, dos quais, cerca de 40% com alta aptidão.
Recomendações
- Um bom sinalizador para o mercado poderia ser a implantação de um programa de testes já acordado, e a autorização para uso irrestrito de misturas até B2, não compulsória, sempre com biodiesel que necessariamente atenda às especificações estabelecidas em Portaria da ANP. Mediante essa regulamentação da ANP, as distribuidoras poderiam passar a fornecer óleo diesel com até 2% de biodiesel, ficando sob sua responsabilidade o cumprimento das especificações do produto entregue ao revendedor ou ao consumidor.
Desta forma, na presente situação dos custos/preços, a diversidade de contextos de demanda de diesel no Brasil pode proporcionar o surgimento de mercados precursores.
Observação final
O biodiesel pode cumprir um papel importante no fortalecimento da base agroindustrial brasileira e no incremento da sustentabilidade da matriz energética nacional com geração de empregos e benefícios ambientais relevantes. É sempre útil lembrar a experiência do etanol, evoluindo de uma situação de necessidade de grandes subsídios em 1975, para uma forte posição competitiva hoje. Há disponibilidade de terras, clima adequado e tecnologia agronômica, mas não há competitividade, no sentido convencional. É necessário um reforço da base de variedades e cultivares, exceto para a soja, e algum aperfeiçoamento dos processos produtivos, principalmente da rota etílica. O planejamento para implementação do biodiesel requer ações de curto prazo, com a introdução cuidadosa deste biocombustível no mercado, para poder induzir a progressiva superação das dificuldades apontadas.
A evolução tecnológica dos últimos anos mostra tendências para a adoção da transesterificação com metanol e etanol como processo principal para o uso em mistura com o diesel. Justifica-se pela possibilidade de introdução na frota atual de veículos automotivos, sem nenhuma modificação dos motores.
A diversidade de matérias-primas, processos e usos é uma grande vantagem, mas cada caso precisa ser analisado de acordo com as suas especificidades.
Não existem obstáculos técnicos ou normativos para o início da utilização de biocombustíveis em adição ao diesel, mas sua utilização implica em disponibilidade de insumos, segurança no abastecimento, capacidade de abastecimento, capacidade de processamento pela indústria e integração final aos circuitos de distribuição.
A utilização do novo combustível depende, entre outros fatores, de uma relação positiva entre a energia consumida no processo de produção e a energia disponibilizada pelo combustível produzido. Por exemplo, no caso do etanol produzido a partir da cana-de-açúcar, essa relação é de 8,3 para um. Comparativamente, nos EUA, o etanol tem uma relação de apenas 1,3. No Brasil, alguns estudos efetuados para fins de biodiesel indicam uma relação de 1,4 no caso da soja, de aproximadamente, 5,6 no caso do dendê, e de 4,2 para a macaúba, o que confirma o potencial das palmáceas como fonte de matéria-prima, ou seja, maior produtividade e disponibilidade de resíduos de valor energético.
O uso do biodiesel reduz as emissões associadas ao diesel de base fóssil. Trata-se de um produto não tóxico e biodegradável. Estudos europeus com o diesel produzido da canola, concluíram que comparado ao diesel, o biodiesel puro reduz as emissões de gases de efeito estufa em 40 – 60%. As reduções no Brasil, a partir da soja, não seriam maiores.
Aspectos tecnológicos
Para converter óleos vegetais em combustíveis adequados, o processo predominante é a transesterificação em meio alcalino, onde se fazem reagir triglicérides com um álcool, etanol ou metanol, produzindo glicerina e ésteres dos ácidos graxos componentes do óleo vegetal. A diversidade de matérias-primas, óleos, e as alternativas de processo levam a diversos programas de pesquisa e desenvolvimento tecnológico.
A especificação do biodiesel para uso comercial é considerada uma etapa essencial para o desenvolvimento de programas de biodiesel, como atestam experiências européias e americanas. Nestas condições, mesclas de diesel com biodiesel adequadamente especificado, em teores até 20%, podem ser empregadas sem problemas operacionais ou de desempenhos em motores convencionais, sem qualquer ajuste ou modificação. Poucas exceções, limitam o emprego do biodiesel ao B5 (diesel mineral com teor de biodiesel de 5%), praticamente todos os fabricantes de motores matem a garantia de seus equipamentos quando operam com o B20 (diesel mineral com teor de biodiesel de 20%). Tais condições pressupõem sempre o atendimento da especificação do combustível. Cabe observar que a determinação dos teores de biodiesel no diesel ainda requer métodos laboratoriais sofisticados, ao contrário da avaliação dos teores de etanol na gasolina, que pode ser efetuada em campo com relativa facilidade.
No Brasil, a Portaria 255/2003 da Agência Nacional de Petróleo (ANP) estabeleceu uma especificação preliminar do biodiesel com algumas premissas considerando o uso em misturas até 20% (B20). São especificações similares à européia e a americana, com alguma flexibilização para atender as características das matérias-primas nacionais.
Aspectos ambientais
Proporcionalmente ao seu teor em uma mistura com diesel, o biodiesel promove uma redução das principais emissões associadas ao derivado de petróleo, com a exceção notável dos óxidos de nitrogênio (NOx). O incremento observado nas emissões desse poluente, não é elevado, 2% a 4% para o B20, mas deve ser considerado porque é um dos principais precursores do ozônio troposférico, atualmente, o mais grave problema da qualidade do ar na maior cidade brasileira (São Paulo/SP). O aumento das emissões de NOx associado ao biodiesel tem sido confirmado por muitos estudos. Sua atenuação tem sido sugerida com o uso de aditivos e alterações nos motores.
As emissões de gases do efeito estufa associadas ao biodiesel têm sido avaliadas na última década, nas condições européias, considerando o uso de colza e soja como matérias-primas e ésteres metílicos como o B10 e B20. Os resultados, expressos em biodiesel puro (B100), indicam reduções de 40% a 60% das emissões correspondentes ao diesel puro. Resultados mais recentes mostram variação ainda maior para éster metílico de colza, em função das condições de rotação de culturas, uso de fertilizantes e uso ou não da glicerina.
A redução das emissões de gases de efeito estufa pode ser relevante, contudo os valores monetários associados a possíveis créditos de carbono são ainda pequenos. Para valores de crédito entre US$ 1 e 5/tonelada de carbono avaliado, estes valores corresponderiam e cerca de 3% do custo da produção.
Aspectos econômicos
Para que seja possível estabelecer comparações, as alternativas de custo do biodiesel e do diesel mineral devem considerar os dois combustíveis sem impostos. Essas comparações devem, ainda, no caso do biodiesel, incluir todos os custos da produção agrícola e industrial. Não apenas custos operacionais, mas também, os custos relativos ao capital, custos da terra e, se for o caso, o custo dos assentamentos e suas benfeitorias. Em casos em que haja outras culturas consorciadas com a mamona, tipicamente da agricultura familiar, devem-se considerar todos os custos associados e seus retornos. Só assim é possível avaliar corretamente o valor do subsídio alocado ao diesel.
Os custos de produção do biodiesel dependem essencialmente do custo da matéria-prima, do óleo vegetal ou outra substancia graxa, e dos custos de processamento industrial, podendo subtrair-se os créditos de correntes da comercialização do glicerol.
Em geral, o custo do óleo vegetal corresponde à cerca de 85% do custo do biodiesel, quando este é produzido em plantas de alta capacidade. Há, portanto, interesse em reduzir os custos da matéria-prima e eventualmente, obter o material graxo a partir de rejeitos industriais: óleo de fritura usado, sebo e águas servidas.
Matérias-primas, tecnologia agrícola e disponibilidade de áreas no Brasil
Quanto às matérias-primas mais promissoras para utilização, deve-se referir aos estudos recentes da EMBRAPA, em 2003, para levantar os cultivos e as aptidões regionais. De uma forma geral, têm sido mencionados a soja para as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, a mamona para o Nordeste e o dendê para a região Amazônica.
Girassol, amendoim e outros também têm sido considerados. Igualmente, as Palmáceas tropicais são sempre mencionadas como viáveis e potenciais produtores de biodiesel. Alguns estudos apontam perspectivas interessantes para as oleaginosas aparentemente inusitadas e pouco citadas, como o abacate, com uma produtividade estimada em 1200 litros de biodiesel por hectare.
Muitas oleaginosas podem ser usadas para a produção de biodiesel. A área para suprir 5% do diesel B5 com oleaginosas locais, e usando apenas soja, dendê e mamona, seria cerca de 3 milhões de hectares. A área de expansão possível para grãos é de, pelo menos, 90 milhões de hectares. As áreas aptas para o dendê atingem, na Amazônia, cerca de 70 milhões de hectares, com alta aptidão em cerca de 40%.
A soja conta com uma base agrícola variada e tecnologia adequada, além de uma enorme experiência da produção como cultura extensiva, de grandes áreas. Utiliza 20 milhões de hectares e dispõe de 100 milhões de hectares aptos para expansão. Não há limitações nem técnicas, nem de áreas para suportar um programa de biodiesel para misturas.
O agronegócio da soja gera empregos diretos para 4,7 milhões de pessoas em diversos segmentos, de insumos, produção, transporte, processamento e distribuição, e nas cadeias produtivas de suínos e aves. Trata-se de uma produção de 52 milhões de toneladas em 20 milhões de hectares, no total, diretos e indiretos, quatro hectares por pessoa.
Na Europa e nos EUA, o custo do biodiesel é hoje, 1,5 a 3 vezes maior que o diesel mineral. Não há previsão de reduções importantes desse custo para o futuro. O biodiesel é justificado por externalidades positivas como o meio ambiente, geração de empregos, segurança e balanço de pagamentos. O mesmo ocorreria no Brasil; com exceção possível no caso da mamona ou algumas oleaginosas que poderiam evoluir muito com a pesquisa agrícola. Contudo, é preciso conhecer, de modo mais detalhado, os custos atuais e esperados no futuro. Além de valorizar externalidades positivas importantes como geração de empregos e renda, é importante dimensionar os níveis de subsídios necessários, decidir sobre a adequação, ou considerar alternativas.
A diferença entre custos de produção do diesel, sem impostos, e custos de oportunidade, que são os valores pagos no mercado internacional para os óleos vegetais, indica o valor do subsídio a ser pago diretamente ou por meio de renúncia fiscal. Mesmo no caso da soja, que conta com um subsídio mínimo, apenas a renúncia fiscal não seria suficiente para atingir o valor ideal para a incorporação do biodiesel como alternativa econômica ao óleo mineral.
Custos, custos de oportunidade e competitividade
Na Europa e nos Estados Unidos o custo do biodiesel é hoje uma e meia a três vezes maior que o diesel mineral. Não há previsão de reduções importantes desse custo no futuro. O biodiesel é justificado por externalidades positivas como o meio ambiente, geração de empregos, segurança e balanço de pagamentos. O mesmo ocorreria no Brasil; com exceção possível no caso da mamona ou algumas oleaginosas que poderiam evoluir muito com a pesquisa agrícola. Contudo, é preciso conhecer de modo mais detalhado, os custos atuais e esperados no futuro. Além de valorizar externalidades positivas importantes como a geração de renda e emprego, é importante dimensionar os níveis de subsídios necessários, decidir sobre adequação, ou considerar alternativas.
A diferença entre custos de produção do diesel, sem impostos, e custos de oportunidade, que são os valores pagos no mercado internacional para os óleos vegetais, indica o valor do subsídio a ser pago diretamente ou por meio de renúncia fiscal. Mesmo no caso da soja, que conta com um subsídio mínimo, apenas a renúncia fiscal não seria suficiente para atingir o valor ideal para a incorporação do biodiesel com alternativa econômica do óleo mineral.
Mercado para Biodiesel no Brasil
Com o sucedâneo do óleo diesel, o mercado potencial para o biodiesel é determinado pelo mercado do derivado de petróleo. A demanda total de óleo diesel no Brasil em 2002 foi da ordem de 39,2 milhões de metros cúbicos, dos quais 76% foram consumidos no setor de transporte, 16% no setor agropecuário e 5% para geração de energia elétrica nos sistemas isolados. A importação de diesel, em 2002, correspondeu a 16,3% do mercado e significou nos últimos anos um dispêndio anual da ordem de US$1,2 bilhão, sem considerar o diesel produzido com petróleo importado, cerca de 8% do total de diesel consumido.
No setor de transporte, 97% da demanda ocorre no modal rodoviário, ou seja, caminhões, ônibus e utilitários, já que no Brasil estão proibidos os veículos leves a diesel. Em termos regionais, o consumo de diesel ocorre principalmente, na região Sudeste (44%), vindo a seguir o Sul (20%), Nordeste (15%), Centro-Oeste (12%) e Norte (9%). O diesel para consumo veicular no Brasil pode ser diesel interior, com teor de enxofre de 0,35% ou o diesel metropolitano, com 0,20 de enxofre, que corresponde por cerca de 30% do mercado.
A geração de energia elétrica nos sistemas isolados da região Amazônica consumiu 530 mil metros cúbicos de diesel, distribuídos na geração de 2079 GWh, no Amazonas (30%), Rondônia (20%), Amapá (16%), Mato Grosso (11%), Pará (11%), Acre (6%), Roraima (3%), além de outros pequenos sistemas em outros estados. Esses números se referem a demanda de serviço público. Existem grandes consumidores privados de diesel para geração de energia elétrica como empresas de mineração localizadas na região Norte.
Como um exercício e sem considerar eventuais dificuldades de logística ou de produção, podem ser inicialmente considerados os seguintes mercados:
Uso de B5 no diesel metropolitano: 0,45 Mm3;
Uso de B5 no diesel consumido no setor agropecuário: 03,1 Mm3;
Uso de B5 em sistemas isolados: 0,10 Mm3;
Uso de B5 em todo mercado de diesel: 2,00 Mm3
Conclusões
- O uso do biodiesel reduz as principais emissões locais associadas ao diesel, de material particulado, monóxido de carbono, hidrocarbonetos, Sox - óxido de enxofre, exceto dos NOx – óxidos de nitrogênio (+2 a 4%, com o B20). É não-tóxico e biodegradável.
São características muito importantes para os centros urbanos no Brasil.
- No Brasil há um grande número de oleaginosas que poderiam ser usadas para produzir biodiesel. Considerando áreas a cultivar para suprir 5% da demanda de diesel (B5), com oleaginosas locais, de acordo com o zoneamento da EMBRAPA, e tomando simplificadamente, apenas a soja, dendê e mamona, estima-se uma necessidade de 3 milhões de hectares. A área de expansão possível para grãos é de 90 milhões de hectares. As áreas aptas para o dendê atingem, na Amazônia, cerca de 70 milhões de hectares, dos quais, cerca de 40% com alta aptidão.
Recomendações
- Um bom sinalizador para o mercado poderia ser a implantação de um programa de testes já acordado, e a autorização para uso irrestrito de misturas até B2, não compulsória, sempre com biodiesel que necessariamente atenda às especificações estabelecidas em Portaria da ANP. Mediante essa regulamentação da ANP, as distribuidoras poderiam passar a fornecer óleo diesel com até 2% de biodiesel, ficando sob sua responsabilidade o cumprimento das especificações do produto entregue ao revendedor ou ao consumidor.
Desta forma, na presente situação dos custos/preços, a diversidade de contextos de demanda de diesel no Brasil pode proporcionar o surgimento de mercados precursores.
Observação final
O biodiesel pode cumprir um papel importante no fortalecimento da base agroindustrial brasileira e no incremento da sustentabilidade da matriz energética nacional com geração de empregos e benefícios ambientais relevantes. É sempre útil lembrar a experiência do etanol, evoluindo de uma situação de necessidade de grandes subsídios em 1975, para uma forte posição competitiva hoje. Há disponibilidade de terras, clima adequado e tecnologia agronômica, mas não há competitividade, no sentido convencional. É necessário um reforço da base de variedades e cultivares, exceto para a soja, e algum aperfeiçoamento dos processos produtivos, principalmente da rota etílica. O planejamento para implementação do biodiesel requer ações de curto prazo, com a introdução cuidadosa deste biocombustível no mercado, para poder induzir a progressiva superação das dificuldades apontadas.
Biodiesel no tanque
Se tudo correr bem, dentro de dois anos os veículos brasileiros movidos à óleo diesel caminhões, ônibus, tratores e locomotivas - estarão rodando com um percentual de biodiesel no tanque. Esse novo combustível é produzido através da reação química de óleos vegetais com um álcool (metanol ou etanol), sempre na presença de uma substância química chamada catalisador que é fundamental para promover a transformação química. Os óleos vegetais empregados podem ser extraídos da soja, do girassol, do amendoim, de outras sementes oleaginosas, ou ainda de frutos como o Caryocar brasiliense (pequi), a Acrocomia aculeata (macaúba) ou Elaeis guineensis (dendê).
O processo de produção a base de óleos vegetais e álcool metílico, sob aquecimento, é de domínio público. Nos últimos 5 a 10 anos, esse tipo de biodiesel passou a ser comercializado em larga escala na União Européia, onde o óleo de colza (canola) é empregado como matéria prima. Nos Estados Unidos as matérias primas principais são o óleo de soja e o metanol, que é um derivado do gás natural ou do petróleo. No Brasil alguns grupos de pesquisa e pequenos produtores, utilizam o metanol como no processo europeu e americano, porém com óleos de soja, babaçu e outros óleos virgens, além dos óleos de fritura. O uso do metanol, um álcool tóxico, venenoso e de origem fóssil (derivado do petróleo) é uma das grandes desvantagens desse processo.
Uma alternativa interessante seria a utilização do álcool etílico (etanol) obtido da cana-de-açúcar, que é 100% renovável e garante maior segurança na manipulação devido a sua menor toxicidade. Além disso, no Brasil existe uma maior disponibilidade do álcool de cana (maior produtor mundial de etanol), enquanto parte (50% aproximadamente) do metanol consumido no país para outras finalidades é importado. Porém, até o presente, esse álcool não podia ser empregado com eficiência como substituto do metanol, devido à baixa taxa de conversão dos óleos vegetais em biodiesel e também à dificuldade de separação das fases constituídas de biodiesel e do subproduto chamado glicerina. Pesquisas realizadas nos laboratórios da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto, por uma equipe coordenada pelo professor Miguel J. Dabdoub, permitiram o desenvolvimento de um novo processo e tecnologia capazes de superar essas limitações. Esses pesquisadores também conseguiram reduzir o tempo reacional que anteriormente era de seis horas para apenas 30 minutos.
As vantagens não param por aí, pois esse desenvolvimento tornou o processo tecnicamente viável reduzindo o consumo energético e consequentemente os custos operacionais, particularmente porque a transformação ocorre a frio (temperatura ambiente). Algumas dessas vantagens são aplicáveis também para o uso do metanol o que deverá favorecer processos anteriormente estabelecidos. Além do grupo de pesquisa do LADETEL- USP/RP, existem outras iniciativas espalhadas por todo o país que estudam e desenvolvem alternativas para substituir o diesel derivado de petróleo. São profissionais que estão focados na obtenção de ganhos ambientais - com a diminuição das emissões de poluentes - e econômicos proporcionados pelo uso do novo combustível.
Hoje, a frota nacional consome cerca de 37 bilhões de litros de óleo diesel por ano. Em 2005, esse volume subirá para 40 bilhões de litros, conforme projeção da Agência Nacional do Petróleo (ANP). A meta do Programa Brasileiro de Desenvolvimento Tecnológico de Biodiesel (Probiodiesel), do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) e mais recentemente do Grupo de Trabalho Interministerial coordenado pela Casa Civil da Presidência da República é montar um amplo plano de produção de biodiesel, com o incentivo ao plantio de diversas oleaginosas. Esse combustível servirá como complemento ao óleo diesel comum e, futuramente, poderá ser usado de forma integral nos motores diesel se houver oferta suficiente. A idéia inicial é acrescentar 5% de biodiesel ao óleo diesel comum - fórmula conhecida como B5, em uma iniciativa similar a que ocorre com a gasolina, que recebe adição de cerca de 25% de etanol anidro. Com essa medida, estima-se que o Brasil reduza em 33%, de um total de 6 bilhões de litros, suas importações de diesel, gerando uma economia anual de US$ 350 milhões, além de um grande número de empregos diretos e indiretos. Reforçando a importância dos benefícios que o biodiesel pode trazer para o país, várias comissões do Congresso Nacional tem discutido o assunto, particularmente na Câmara dos Deputados onde atualmente tramitam dois projetos de Lei para a implantação do biodiesel. Um do Deputado Mendes Thame do PSBD-SP e o outro do Deputado Rubens Otoni do PT-GO.
Mesmo que o país alcance a auto-suficiência em petróleo nos próximos anos, será preciso continuar importando diesel. O problema é que o óleo extraído das profundezas marítimas da costa brasileira tem qualidade inadequada para a produção do combustível diesel. Na maior parte das jazidas, principalmente, a da Bacia de Campos, o petróleo é do tipo pesado, caracterizado por ainda não ter completado seu ciclo de maturação e por sofrer um processo de biodegradação natural. Ainda deve ser considerado que a capacidade das refinarias brasileiras não acompanha o incremento do consumo de petrodiesel. Além de diminuir a dependência da importação, o biodiesel a base de etanol (álcool de cana) é de grande importância estratégica e poderá facilitar a incorporação desse tipo de combustível na matriz energética do país. Os resultados das pesquisas realizadas, demonstram indiscutivelmente que o biodiesel é mais eficiente do que o óleo vegetal in natura porque não causa corrosão no motor, não carboniza os bicos injetores de combustível e melhora a partida do veículo a frio por ser menos denso e fluir melhor nas mangueiras e dutos. Segundo Dabdoub - Doutor em química e coordenador do Laboratório de Desenvolvimento de Tecnologias Limpas (LADETEL) da USP - o processo de produção de biodiesel já é conhecido há alguns anos, mas era economicamente inviável devido às limitações de ordem técnica, como a baixa taxa de conversão da mistura óleo e etanol em biodiesel. "A síntese empregando o metanol com óleos vegetais resulta num aproveitamento da ordem de 98%, enquanto com o etanol chegava a, no máximo, 80%", explica Dabdoub. Outro problema a ser solucionado era a separação da glicerina, um subproduto da reação. "O nosso grande desafio foi desenvolver uma metodologia que superasse esses dois obstáculos. Conseguimos o êxito no início deste ano com a finalização de um processo que permite uma transformação acima de 98% e possibilita a separação espontânea da glicerina, além de diminuir o tempo da reação significativamente", diz o pesquisador.
O sucesso do trabalho deveu-se à descoberta de catalisadores eficientes, substâncias que aceleram a reação química. No biodiesel de metanol, o catalisador empregado é o hidróxido de sódio ou de potássio, também conhecido como soda ou potassa cáustica. Para sintetizar o biodiesel de etanol, além do catalisador tradicional o pesquisador adicionou uma outra substância catalisadora, cujo nome é mantido em segredo porque o processo de obtenção da patente não está concluído. "Podemos dizer que esse catalisador é um hidróxido metálico misto, chamado vulgarmente de argila", afirma Dabdoub. Segundo ele, o processo de transformação de óleos vegetais e álcool em biodiesel, conhecido como transesterificação, é relativamente simples. O óleo vegetal é misturado ao álcool etílico e aos catalisadores em um reator e sofre agitação por meia hora. Para cada 1.000 litros de óleo são utilizados 200 litros de etanol e de 0,8% a 1% dos agentes catalisadores. Em seguida, a mistura vai para um decantador onde ocorre a separação da glicerina, substância de alto valor agregado, usada por indústrias farmacêuticas, de cosméticos e de explosivos. A separação pode ser mais rápida e eficiente se o processo de centrifugação for utilizado. Uma tonelada de glicerina chega a custar US$ 1,3 mil.
Uma grande vantagem do biodiesel desenvolvido pelo LADETEL é o processo de produção, bem mais rápido do que o de fabricação do biodiesel metílico. "Conseguimos fazer a reação em 30 minutos, enquanto o processo tradicional leva seis horas. Com isso, somos doze vezes mais produtivos", diz Dabdoub. Essa síntese vai ficar ainda mais ágil. O pesquisador conseguiu fazer a reação óleo vegetal-etanol usando irradiação eletromagnética. "É um processo muito promissor que substitui o segundo catalisador pela irradiação na faixa do ultra-som. A reação pode ser feita de forma contínua em cerca de 10 minutos", diz Dabdoub. O pesquisador acredita que quando esse novo processo, ainda em escala laboratorial, estiver concluído poderá também ser empregado na fabricação de biodiesel na Europa e nos Estados Unidos.
Por outro lado, em conjunto com o grupo de pesquisa do Doutor Pietro Ciancaglini, Professor associado de Bioquímica da USP de Ribeirão Preto, o LADETEL estuda o emprego de enzimas para realizar a produção de biodiesel etílico. Grandes avanços nesta área estão sendo feitos e o emprego da biotecnologia contribui com inúmeras vantagens. A transformação total, eficiente e limpa de óleos vegetais em biodiesel etílico tem sido conseguida com algumas enzimas. Porém, a grande desvantagem do tempo prolongado necessário (até 24h) ainda precisa ser superada.
Vantagens ambientais - Apesar da eficiência do processo de conversão e do aproveitamento da glicerina, o biodiesel brasileiro ainda é mais caro do que o diesel comum. Mas a diferença, diz Dabdoub, pode ser facilmente anulada se o governo desonerar o produto de impostos na fase inicial do programa, antes de atingir a produção em grande escala. O pesquisador acrescenta que o novo combustível não acarreta nenhum problema de ordem técnica aos veículos e que não são necessárias modificações no motor para que ele funcione normalmente. Outra alternativa é o uso do biodiesel etílico como combustível sem a presença do diesel de petróleo. Ele traz inúmeras vantagens, a começar pelo fato de ser um combustível totalmente nacional e 100% renovável. Há também ganhos ambientais, como a redução da emissão de gases poluentes que causam efeito estufa, fenômeno associado ao aquecimento da temperatura da Terra. O uso do biodiesel na sua forma pura diminui a emissão de dióxido de carbono em 46% e de fumaça preta em 68%. Se for usada a mistura B5, a redução de fumaça preta chega a 13%. Segundo Dabdoub o biodiesel puro é isento de enxofre. Por outro lado, "O óleo diesel contém enxofre gerador de chuva ácida e benzo-a-pireno potencialmente cancerígeno. A vantagem do biodiesel etílico nacional é que ele proporciona uma combustão muito mais limpa", A adoção desse combustível também trará benefícios econômicos.
O Brasil ficará menos dependente do petróleo e haverá um fortalecimento do agronegócio, com geração de empregos e criação de um importante mercado de consumo para óleos vegetais. Dabdoub afirma que uma vantagem do novo combustível é o fato dele poder ser feito à partir do óleo de diversas plantas. São oleaginosas com uma variedade de produtividades e adaptadas a diferentes regiões do país. Assim, a soja produz 400 litros(l) de óleo por hectare (ha), o girassol, 800 l/ha, mamona, 1.200 l/ha, babaçu, 1.600 l/ha, dendê, 5.950 l/ha, pequi, 3.100 l/ha, milho, 160 l/ha, algodão 280 l/ha e macaúba 4000 l/ha. "Segundo a Embrapa, o amendoim forrageiro dos cultivares BR-1 e BRS-151 L-7 é resistente ao stress hídrico e adequado para plantio no semi-árido, rende 1.700 Kg do grão por hectare e 750 litros de óleo, sem irrigação, e 4.800 Kg/ha correspondendo a quase 2.100 litros de óleo/ha, no plantio irrigado", informa o professor.
"Até o presente temos usado onze variedades de óleos vegetais nos nossos experimentos, como a soja, amendoim, girassol, algodão, milho, canola, mamona, pequi, macaúba, babaçu e dendê, além dos óleos de fritura já usados. Porém, para abastecer as necessidades dos nossos parceiros de pesquisa em escalas maiores, utilizamos o óleo de soja porque é o mais abundante e o Brasil é o segundo maior produtor mundial de óleo de soja, com uma produção anual de 54 milhões de toneladas". Mas, no futuro o plantio de outras oleaginosas deverá ser incentivado e os seus óleos serão empregados na produção de biodiesel, elevando a demanda por essas plantas e promovendo o desenvolvimento em várias regiões do país.
"No Vale do Ribeira e no Pontal do Paranapanema a macaúba poderia ser empregada, enquanto no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, por exemplo, o biodiesel poderia ser produzido a partir do pequi. Para as regiões Norte e Nordeste, isso poderá ser feito com óleo de babaçu, amendoim e dendê." Hoje existe a grande discussão até a nível de governo federal sobre a produção de biodiesel com óleo de mamona. Principalmente para a região do árido e semi-árido nordestino. Isso é possível pois conforme declara Dabdoub "a reação de transesterificação acontece muito bem inclusive com o óleo de mamona, assim sendo, a produção do biodiesel não é problema. Porém, devemos ter pesquisas conclusivas dos efeitos causados pelo uso prolongado do biodiesel de mamona nos motores, uma vez que a presença de um grupamento hidroxílico na cadeia lateral dos ácidos graxos - ácido ricinoleico - torna as características físico-químicas do biodiesel de mamona bastante diferentes daquelas observadas para os ésteres metílicos ou etílicos derivados de qualquer outro óleo vegetal, o que pode ser uma séria restrição técnica que somente os resultados práticos e concretos das pesquisas poderão eliminar".
Testes de desempenho - Para provar a eficácia do biodiesel de etanol ou também chamado de "biodiesel de cana", Dabdoub fechou acordo com empresas da iniciativa privada, entidades e instituições de pesquisa para a realização de testes de desempenho, consumo e potência. A Universidade Estadual Paulista (Unesp), Campus de Jaboticabal, ficou responsável por verificar a eficiência do produto em tratores agrícolas. Os ensaios ficaram a cargo do engenheiro agrícola Afonso Lopes, professor do Departamento de Mecanização Agrícola da Unesp, que contou com apoio financeiro da FAPESP. O pesquisador testou o combustível em um trator Valtra, modelo BM100, com cem cavalos de potência, equipado com um sistema de medição de combustível desenvolvido na Unesp. O veículo foi avaliado em condição de campo sob cinco tipos de mistura biodiesel-óleo: B100 (apenas biodiesel), B25 (25% de biodiesel e 75% de óleo), B50 (metade biodiesel e metade óleo), B75 (75% de biodiesel e 25% de óleo) e apenas óleo diesel. "O funcionamento do trator foi normal com todas as misturas.
Constatamos uma redução de consumo de combustível quando se usou uma mistura na proporção de até 50% de biodiesel devido à maior lubricidade desse combustível. Acima disso, o consumo aumentou", afirma Lopes. Segundo o pesquisador, isso aconteceu porque o biodiesel tem menor poder calorífico - de 3% a 4% - e por isso consome mais quando a mistura é superior a 50%. A próxima etapa do estudo será avaliar o nível de emissão de poluentes gerado pelo biodiesel.
O produto também foi testado em carros, locomotivas, motores e geradores elétricos. Nesse último caso, a parceria foi estabelecida com a empresa Branco, do Paraná, em abril deste ano. "Os resultados têm sido altamente satisfatórios". Observamos uma redução na emissão de poluentes e agora estamos realizando testes de durabilidade empregando o biodiesel puro (B100) ", informa o pesquisador.
Os ensaios com locomotivas estão sendo executados pela América Latina Logística (ALL), concessionária ferroviária com atuação no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Argentina. No primeiro momento, foram realizados com sucesso testes laboratoriais para medir consumo, potência e emissões. A segunda fase envolverá o uso do combustível na forma de B25 em locomotivas que rodarão nos trechos Ourinhos-Apucarana e Curitiba-Apucarana durante um ano. "Em função dos resultados, a ALL avaliará a possibilidade de usar biodiesel em toda a frota", afirma Dabdoub.
O biodiesel, por fim, também está sendo testado nas misturas B20, B30 e B100 em veículos de passeio, como no caso dos automóveis das montadoras francesas Peugeot e Citroën. Esses carros estão equipados com motores de última geração que permitem a injeção direta do combustível sob alta pressão (HDI - High Direct Injection Fuel) comumente chamados de "Common feed Rail". Para se ter uma idéia da tecnologia avançada que está sendo utilizada, basta dizer que somente uma montadora de caminhões no país emprega comercialmente esse tipo de motores, que por si só permitem a redução do consumo e das emissões de poluentes. Os estudos da USP neste campo específico, concentram-se na análise de consumo de combustível, durabilidade e emissão de poluentes (monóxido e dióxido de carbono, dióxido de enxofre, hidrocarbonetos não queimados, gases de nitrogênio e material particulado). Os testes de durabilidade estão sendo realizados, rodando no mínimo 80.000 Km, com a análise da variação das emissões de gases poluentes a cada 20.000 Km.
"Também fazemos testes com os motores cedidos por essas montadoras, em colaboração com os Professores Antônio Moreira e Josmar Pagliuso da Escola de Engenharia Mecânica da USP de São Carlos que conta com uma das mais modernas instrumentações laboratoriais do país, para análise de rendimento, consumo, potência e também de emissões, além de três bancadas dinamométricas. Esses mesmos ensaios são feitos de forma paralela na sede da PSA Peugeot-Citroën na França", conta Dabdoub.
Estudos pelo Brasil - A pesquisa da USP de Ribeirão Preto não é a única relacionada ao desenvolvimento de combustíveis alternativos ao diesel no Brasil. Existe uma extensa rede que envolve universidades, institutos de pesquisa, associações empresariais, agências reguladoras e de fomento, empresas, cooperativas e ONGs interessadas no desenvolvimento e na implantação do biodiesel. Ainda falando de óleos residuais, o LADETEL mantém um sub-projeto no chamado "Projeto Biodiesel Brasil" coordenado por Dabdoub, que utiliza os óleos residuais dos refeitórios universitários (bandejões) da USP-RP, USP-Pirassununga, ESALQ-Piracicaba, UNESP de Jaboticabal e USP-Capital, além de grande quantidade de óleo doado pela rede de lanchonetes Mc Donald's do estado de São Paulo. O projeto com esta rede de "fast food" visa uma ação social através do apóio do Projeto Biodiesel Brasil ao GACC (Grupo de Apóio à Criança com Câncer) que já recebe apóio de outros setores da USP e dessa mesma rede de lanchonetes.
Resumo Histórico - No princípio, Diesel usou óleo vegetal
Foi a partir da invenção do motor a diesel, pelo engenheiro francês de origem alemã Rudolph Christian Carl Diesel (1858-1913) no final do século XIX, que vislumbrou-se, pela primeira vez, a possibilidade de se usar óleos vegetais como combustível. Foi apenas na primeira década do século passado que o óleo diesel passou a ser produzido à partir do petróleo. A primeira patente de biodiesel feito com óleo de amendoim e metanol foi depositada no Japão na década de 1940, seguida de outras três patentes americanas na década de 1950.
No Brasil, as pesquisas tiveram início nos anos de 1980 com a criação do Programa de Óleos Vegetais (OVEG). O pioneirismo coube, entre outros, ao IME, IPT, CEPLAC - Min. Agricultura, a escola de Engenharia Mecânia de São e à Universidade Federal do Ceará (UFC), responsável pela primeira patente brasileira de um processo de biodiesel. Pesquisadores cearenses produziram o combustível à partir de uma mistura de óleo de mamona e metanol.
"O programa brasileiro não vingou nessa época por motivos econômicos. Faltou uma visão estratégica de longo prazo que permitisse a superação das deficiências tecnológicas como foi feito com o programa do álcool (PROALCOOL)", conta o professor Miguel J. Dabdoub. Nos anos 90, países da Europa começaram a implantar programas de uso do biodiesel. Atualmente, dois milhões de veículos rodam no continente com esse combustível. Na Alemanha e na Áustria, emprega-se o biodiesel puro, enquanto nos demais países ele é misturado ao diesel na proporção de 5% a 20%. Dentro de três anos (2005) 2% de todo combustível consumido na Europa deve ser proveniente de fontes renováveis. Em 2010, esse percentual subirá para 5,75%. Segundo Dabdoub "Com isso, existe uma grande possibilidade do Brasil vir a exportar biodiesel". Em função das políticas de incentivo ao uso de combustíveis renováveis, adotadas na Europa, é previsível que haverá um aumento da demanda superior à sua capacidade de produção, enquanto o Brasil é o país com maior potencial de produção. "Só no cerrado, temos 90 milhões de hectares para expandir a nossa fronteira agrícola e teremos o biodiesel realmente 100% renovável se empregarmos o álcool de cana ao invés do metanol" conclui o professor.
Texto: Antonio Carlos Ferreira Batista
O processo de produção a base de óleos vegetais e álcool metílico, sob aquecimento, é de domínio público. Nos últimos 5 a 10 anos, esse tipo de biodiesel passou a ser comercializado em larga escala na União Européia, onde o óleo de colza (canola) é empregado como matéria prima. Nos Estados Unidos as matérias primas principais são o óleo de soja e o metanol, que é um derivado do gás natural ou do petróleo. No Brasil alguns grupos de pesquisa e pequenos produtores, utilizam o metanol como no processo europeu e americano, porém com óleos de soja, babaçu e outros óleos virgens, além dos óleos de fritura. O uso do metanol, um álcool tóxico, venenoso e de origem fóssil (derivado do petróleo) é uma das grandes desvantagens desse processo.
Uma alternativa interessante seria a utilização do álcool etílico (etanol) obtido da cana-de-açúcar, que é 100% renovável e garante maior segurança na manipulação devido a sua menor toxicidade. Além disso, no Brasil existe uma maior disponibilidade do álcool de cana (maior produtor mundial de etanol), enquanto parte (50% aproximadamente) do metanol consumido no país para outras finalidades é importado. Porém, até o presente, esse álcool não podia ser empregado com eficiência como substituto do metanol, devido à baixa taxa de conversão dos óleos vegetais em biodiesel e também à dificuldade de separação das fases constituídas de biodiesel e do subproduto chamado glicerina. Pesquisas realizadas nos laboratórios da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto, por uma equipe coordenada pelo professor Miguel J. Dabdoub, permitiram o desenvolvimento de um novo processo e tecnologia capazes de superar essas limitações. Esses pesquisadores também conseguiram reduzir o tempo reacional que anteriormente era de seis horas para apenas 30 minutos.
As vantagens não param por aí, pois esse desenvolvimento tornou o processo tecnicamente viável reduzindo o consumo energético e consequentemente os custos operacionais, particularmente porque a transformação ocorre a frio (temperatura ambiente). Algumas dessas vantagens são aplicáveis também para o uso do metanol o que deverá favorecer processos anteriormente estabelecidos. Além do grupo de pesquisa do LADETEL- USP/RP, existem outras iniciativas espalhadas por todo o país que estudam e desenvolvem alternativas para substituir o diesel derivado de petróleo. São profissionais que estão focados na obtenção de ganhos ambientais - com a diminuição das emissões de poluentes - e econômicos proporcionados pelo uso do novo combustível.
Hoje, a frota nacional consome cerca de 37 bilhões de litros de óleo diesel por ano. Em 2005, esse volume subirá para 40 bilhões de litros, conforme projeção da Agência Nacional do Petróleo (ANP). A meta do Programa Brasileiro de Desenvolvimento Tecnológico de Biodiesel (Probiodiesel), do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) e mais recentemente do Grupo de Trabalho Interministerial coordenado pela Casa Civil da Presidência da República é montar um amplo plano de produção de biodiesel, com o incentivo ao plantio de diversas oleaginosas. Esse combustível servirá como complemento ao óleo diesel comum e, futuramente, poderá ser usado de forma integral nos motores diesel se houver oferta suficiente. A idéia inicial é acrescentar 5% de biodiesel ao óleo diesel comum - fórmula conhecida como B5, em uma iniciativa similar a que ocorre com a gasolina, que recebe adição de cerca de 25% de etanol anidro. Com essa medida, estima-se que o Brasil reduza em 33%, de um total de 6 bilhões de litros, suas importações de diesel, gerando uma economia anual de US$ 350 milhões, além de um grande número de empregos diretos e indiretos. Reforçando a importância dos benefícios que o biodiesel pode trazer para o país, várias comissões do Congresso Nacional tem discutido o assunto, particularmente na Câmara dos Deputados onde atualmente tramitam dois projetos de Lei para a implantação do biodiesel. Um do Deputado Mendes Thame do PSBD-SP e o outro do Deputado Rubens Otoni do PT-GO.
Mesmo que o país alcance a auto-suficiência em petróleo nos próximos anos, será preciso continuar importando diesel. O problema é que o óleo extraído das profundezas marítimas da costa brasileira tem qualidade inadequada para a produção do combustível diesel. Na maior parte das jazidas, principalmente, a da Bacia de Campos, o petróleo é do tipo pesado, caracterizado por ainda não ter completado seu ciclo de maturação e por sofrer um processo de biodegradação natural. Ainda deve ser considerado que a capacidade das refinarias brasileiras não acompanha o incremento do consumo de petrodiesel. Além de diminuir a dependência da importação, o biodiesel a base de etanol (álcool de cana) é de grande importância estratégica e poderá facilitar a incorporação desse tipo de combustível na matriz energética do país. Os resultados das pesquisas realizadas, demonstram indiscutivelmente que o biodiesel é mais eficiente do que o óleo vegetal in natura porque não causa corrosão no motor, não carboniza os bicos injetores de combustível e melhora a partida do veículo a frio por ser menos denso e fluir melhor nas mangueiras e dutos. Segundo Dabdoub - Doutor em química e coordenador do Laboratório de Desenvolvimento de Tecnologias Limpas (LADETEL) da USP - o processo de produção de biodiesel já é conhecido há alguns anos, mas era economicamente inviável devido às limitações de ordem técnica, como a baixa taxa de conversão da mistura óleo e etanol em biodiesel. "A síntese empregando o metanol com óleos vegetais resulta num aproveitamento da ordem de 98%, enquanto com o etanol chegava a, no máximo, 80%", explica Dabdoub. Outro problema a ser solucionado era a separação da glicerina, um subproduto da reação. "O nosso grande desafio foi desenvolver uma metodologia que superasse esses dois obstáculos. Conseguimos o êxito no início deste ano com a finalização de um processo que permite uma transformação acima de 98% e possibilita a separação espontânea da glicerina, além de diminuir o tempo da reação significativamente", diz o pesquisador.
O sucesso do trabalho deveu-se à descoberta de catalisadores eficientes, substâncias que aceleram a reação química. No biodiesel de metanol, o catalisador empregado é o hidróxido de sódio ou de potássio, também conhecido como soda ou potassa cáustica. Para sintetizar o biodiesel de etanol, além do catalisador tradicional o pesquisador adicionou uma outra substância catalisadora, cujo nome é mantido em segredo porque o processo de obtenção da patente não está concluído. "Podemos dizer que esse catalisador é um hidróxido metálico misto, chamado vulgarmente de argila", afirma Dabdoub. Segundo ele, o processo de transformação de óleos vegetais e álcool em biodiesel, conhecido como transesterificação, é relativamente simples. O óleo vegetal é misturado ao álcool etílico e aos catalisadores em um reator e sofre agitação por meia hora. Para cada 1.000 litros de óleo são utilizados 200 litros de etanol e de 0,8% a 1% dos agentes catalisadores. Em seguida, a mistura vai para um decantador onde ocorre a separação da glicerina, substância de alto valor agregado, usada por indústrias farmacêuticas, de cosméticos e de explosivos. A separação pode ser mais rápida e eficiente se o processo de centrifugação for utilizado. Uma tonelada de glicerina chega a custar US$ 1,3 mil.
Uma grande vantagem do biodiesel desenvolvido pelo LADETEL é o processo de produção, bem mais rápido do que o de fabricação do biodiesel metílico. "Conseguimos fazer a reação em 30 minutos, enquanto o processo tradicional leva seis horas. Com isso, somos doze vezes mais produtivos", diz Dabdoub. Essa síntese vai ficar ainda mais ágil. O pesquisador conseguiu fazer a reação óleo vegetal-etanol usando irradiação eletromagnética. "É um processo muito promissor que substitui o segundo catalisador pela irradiação na faixa do ultra-som. A reação pode ser feita de forma contínua em cerca de 10 minutos", diz Dabdoub. O pesquisador acredita que quando esse novo processo, ainda em escala laboratorial, estiver concluído poderá também ser empregado na fabricação de biodiesel na Europa e nos Estados Unidos.
Por outro lado, em conjunto com o grupo de pesquisa do Doutor Pietro Ciancaglini, Professor associado de Bioquímica da USP de Ribeirão Preto, o LADETEL estuda o emprego de enzimas para realizar a produção de biodiesel etílico. Grandes avanços nesta área estão sendo feitos e o emprego da biotecnologia contribui com inúmeras vantagens. A transformação total, eficiente e limpa de óleos vegetais em biodiesel etílico tem sido conseguida com algumas enzimas. Porém, a grande desvantagem do tempo prolongado necessário (até 24h) ainda precisa ser superada.
Vantagens ambientais - Apesar da eficiência do processo de conversão e do aproveitamento da glicerina, o biodiesel brasileiro ainda é mais caro do que o diesel comum. Mas a diferença, diz Dabdoub, pode ser facilmente anulada se o governo desonerar o produto de impostos na fase inicial do programa, antes de atingir a produção em grande escala. O pesquisador acrescenta que o novo combustível não acarreta nenhum problema de ordem técnica aos veículos e que não são necessárias modificações no motor para que ele funcione normalmente. Outra alternativa é o uso do biodiesel etílico como combustível sem a presença do diesel de petróleo. Ele traz inúmeras vantagens, a começar pelo fato de ser um combustível totalmente nacional e 100% renovável. Há também ganhos ambientais, como a redução da emissão de gases poluentes que causam efeito estufa, fenômeno associado ao aquecimento da temperatura da Terra. O uso do biodiesel na sua forma pura diminui a emissão de dióxido de carbono em 46% e de fumaça preta em 68%. Se for usada a mistura B5, a redução de fumaça preta chega a 13%. Segundo Dabdoub o biodiesel puro é isento de enxofre. Por outro lado, "O óleo diesel contém enxofre gerador de chuva ácida e benzo-a-pireno potencialmente cancerígeno. A vantagem do biodiesel etílico nacional é que ele proporciona uma combustão muito mais limpa", A adoção desse combustível também trará benefícios econômicos.
O Brasil ficará menos dependente do petróleo e haverá um fortalecimento do agronegócio, com geração de empregos e criação de um importante mercado de consumo para óleos vegetais. Dabdoub afirma que uma vantagem do novo combustível é o fato dele poder ser feito à partir do óleo de diversas plantas. São oleaginosas com uma variedade de produtividades e adaptadas a diferentes regiões do país. Assim, a soja produz 400 litros(l) de óleo por hectare (ha), o girassol, 800 l/ha, mamona, 1.200 l/ha, babaçu, 1.600 l/ha, dendê, 5.950 l/ha, pequi, 3.100 l/ha, milho, 160 l/ha, algodão 280 l/ha e macaúba 4000 l/ha. "Segundo a Embrapa, o amendoim forrageiro dos cultivares BR-1 e BRS-151 L-7 é resistente ao stress hídrico e adequado para plantio no semi-árido, rende 1.700 Kg do grão por hectare e 750 litros de óleo, sem irrigação, e 4.800 Kg/ha correspondendo a quase 2.100 litros de óleo/ha, no plantio irrigado", informa o professor.
"Até o presente temos usado onze variedades de óleos vegetais nos nossos experimentos, como a soja, amendoim, girassol, algodão, milho, canola, mamona, pequi, macaúba, babaçu e dendê, além dos óleos de fritura já usados. Porém, para abastecer as necessidades dos nossos parceiros de pesquisa em escalas maiores, utilizamos o óleo de soja porque é o mais abundante e o Brasil é o segundo maior produtor mundial de óleo de soja, com uma produção anual de 54 milhões de toneladas". Mas, no futuro o plantio de outras oleaginosas deverá ser incentivado e os seus óleos serão empregados na produção de biodiesel, elevando a demanda por essas plantas e promovendo o desenvolvimento em várias regiões do país.
"No Vale do Ribeira e no Pontal do Paranapanema a macaúba poderia ser empregada, enquanto no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, por exemplo, o biodiesel poderia ser produzido a partir do pequi. Para as regiões Norte e Nordeste, isso poderá ser feito com óleo de babaçu, amendoim e dendê." Hoje existe a grande discussão até a nível de governo federal sobre a produção de biodiesel com óleo de mamona. Principalmente para a região do árido e semi-árido nordestino. Isso é possível pois conforme declara Dabdoub "a reação de transesterificação acontece muito bem inclusive com o óleo de mamona, assim sendo, a produção do biodiesel não é problema. Porém, devemos ter pesquisas conclusivas dos efeitos causados pelo uso prolongado do biodiesel de mamona nos motores, uma vez que a presença de um grupamento hidroxílico na cadeia lateral dos ácidos graxos - ácido ricinoleico - torna as características físico-químicas do biodiesel de mamona bastante diferentes daquelas observadas para os ésteres metílicos ou etílicos derivados de qualquer outro óleo vegetal, o que pode ser uma séria restrição técnica que somente os resultados práticos e concretos das pesquisas poderão eliminar".
Testes de desempenho - Para provar a eficácia do biodiesel de etanol ou também chamado de "biodiesel de cana", Dabdoub fechou acordo com empresas da iniciativa privada, entidades e instituições de pesquisa para a realização de testes de desempenho, consumo e potência. A Universidade Estadual Paulista (Unesp), Campus de Jaboticabal, ficou responsável por verificar a eficiência do produto em tratores agrícolas. Os ensaios ficaram a cargo do engenheiro agrícola Afonso Lopes, professor do Departamento de Mecanização Agrícola da Unesp, que contou com apoio financeiro da FAPESP. O pesquisador testou o combustível em um trator Valtra, modelo BM100, com cem cavalos de potência, equipado com um sistema de medição de combustível desenvolvido na Unesp. O veículo foi avaliado em condição de campo sob cinco tipos de mistura biodiesel-óleo: B100 (apenas biodiesel), B25 (25% de biodiesel e 75% de óleo), B50 (metade biodiesel e metade óleo), B75 (75% de biodiesel e 25% de óleo) e apenas óleo diesel. "O funcionamento do trator foi normal com todas as misturas.
Constatamos uma redução de consumo de combustível quando se usou uma mistura na proporção de até 50% de biodiesel devido à maior lubricidade desse combustível. Acima disso, o consumo aumentou", afirma Lopes. Segundo o pesquisador, isso aconteceu porque o biodiesel tem menor poder calorífico - de 3% a 4% - e por isso consome mais quando a mistura é superior a 50%. A próxima etapa do estudo será avaliar o nível de emissão de poluentes gerado pelo biodiesel.
O produto também foi testado em carros, locomotivas, motores e geradores elétricos. Nesse último caso, a parceria foi estabelecida com a empresa Branco, do Paraná, em abril deste ano. "Os resultados têm sido altamente satisfatórios". Observamos uma redução na emissão de poluentes e agora estamos realizando testes de durabilidade empregando o biodiesel puro (B100) ", informa o pesquisador.
Os ensaios com locomotivas estão sendo executados pela América Latina Logística (ALL), concessionária ferroviária com atuação no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Argentina. No primeiro momento, foram realizados com sucesso testes laboratoriais para medir consumo, potência e emissões. A segunda fase envolverá o uso do combustível na forma de B25 em locomotivas que rodarão nos trechos Ourinhos-Apucarana e Curitiba-Apucarana durante um ano. "Em função dos resultados, a ALL avaliará a possibilidade de usar biodiesel em toda a frota", afirma Dabdoub.
O biodiesel, por fim, também está sendo testado nas misturas B20, B30 e B100 em veículos de passeio, como no caso dos automóveis das montadoras francesas Peugeot e Citroën. Esses carros estão equipados com motores de última geração que permitem a injeção direta do combustível sob alta pressão (HDI - High Direct Injection Fuel) comumente chamados de "Common feed Rail". Para se ter uma idéia da tecnologia avançada que está sendo utilizada, basta dizer que somente uma montadora de caminhões no país emprega comercialmente esse tipo de motores, que por si só permitem a redução do consumo e das emissões de poluentes. Os estudos da USP neste campo específico, concentram-se na análise de consumo de combustível, durabilidade e emissão de poluentes (monóxido e dióxido de carbono, dióxido de enxofre, hidrocarbonetos não queimados, gases de nitrogênio e material particulado). Os testes de durabilidade estão sendo realizados, rodando no mínimo 80.000 Km, com a análise da variação das emissões de gases poluentes a cada 20.000 Km.
"Também fazemos testes com os motores cedidos por essas montadoras, em colaboração com os Professores Antônio Moreira e Josmar Pagliuso da Escola de Engenharia Mecânica da USP de São Carlos que conta com uma das mais modernas instrumentações laboratoriais do país, para análise de rendimento, consumo, potência e também de emissões, além de três bancadas dinamométricas. Esses mesmos ensaios são feitos de forma paralela na sede da PSA Peugeot-Citroën na França", conta Dabdoub.
Estudos pelo Brasil - A pesquisa da USP de Ribeirão Preto não é a única relacionada ao desenvolvimento de combustíveis alternativos ao diesel no Brasil. Existe uma extensa rede que envolve universidades, institutos de pesquisa, associações empresariais, agências reguladoras e de fomento, empresas, cooperativas e ONGs interessadas no desenvolvimento e na implantação do biodiesel. Ainda falando de óleos residuais, o LADETEL mantém um sub-projeto no chamado "Projeto Biodiesel Brasil" coordenado por Dabdoub, que utiliza os óleos residuais dos refeitórios universitários (bandejões) da USP-RP, USP-Pirassununga, ESALQ-Piracicaba, UNESP de Jaboticabal e USP-Capital, além de grande quantidade de óleo doado pela rede de lanchonetes Mc Donald's do estado de São Paulo. O projeto com esta rede de "fast food" visa uma ação social através do apóio do Projeto Biodiesel Brasil ao GACC (Grupo de Apóio à Criança com Câncer) que já recebe apóio de outros setores da USP e dessa mesma rede de lanchonetes.
Resumo Histórico - No princípio, Diesel usou óleo vegetal
Foi a partir da invenção do motor a diesel, pelo engenheiro francês de origem alemã Rudolph Christian Carl Diesel (1858-1913) no final do século XIX, que vislumbrou-se, pela primeira vez, a possibilidade de se usar óleos vegetais como combustível. Foi apenas na primeira década do século passado que o óleo diesel passou a ser produzido à partir do petróleo. A primeira patente de biodiesel feito com óleo de amendoim e metanol foi depositada no Japão na década de 1940, seguida de outras três patentes americanas na década de 1950.
No Brasil, as pesquisas tiveram início nos anos de 1980 com a criação do Programa de Óleos Vegetais (OVEG). O pioneirismo coube, entre outros, ao IME, IPT, CEPLAC - Min. Agricultura, a escola de Engenharia Mecânia de São e à Universidade Federal do Ceará (UFC), responsável pela primeira patente brasileira de um processo de biodiesel. Pesquisadores cearenses produziram o combustível à partir de uma mistura de óleo de mamona e metanol.
"O programa brasileiro não vingou nessa época por motivos econômicos. Faltou uma visão estratégica de longo prazo que permitisse a superação das deficiências tecnológicas como foi feito com o programa do álcool (PROALCOOL)", conta o professor Miguel J. Dabdoub. Nos anos 90, países da Europa começaram a implantar programas de uso do biodiesel. Atualmente, dois milhões de veículos rodam no continente com esse combustível. Na Alemanha e na Áustria, emprega-se o biodiesel puro, enquanto nos demais países ele é misturado ao diesel na proporção de 5% a 20%. Dentro de três anos (2005) 2% de todo combustível consumido na Europa deve ser proveniente de fontes renováveis. Em 2010, esse percentual subirá para 5,75%. Segundo Dabdoub "Com isso, existe uma grande possibilidade do Brasil vir a exportar biodiesel". Em função das políticas de incentivo ao uso de combustíveis renováveis, adotadas na Europa, é previsível que haverá um aumento da demanda superior à sua capacidade de produção, enquanto o Brasil é o país com maior potencial de produção. "Só no cerrado, temos 90 milhões de hectares para expandir a nossa fronteira agrícola e teremos o biodiesel realmente 100% renovável se empregarmos o álcool de cana ao invés do metanol" conclui o professor.
Texto: Antonio Carlos Ferreira Batista
sexta-feira, 12 de janeiro de 2007
RESOLUÇÃO ANP Nº 37, DE 22.12.2005 - DOU 23.12.2005
O DIRETOR-GERAL da AGÊNCIA NACIONAL DO PETRÓLEO, GÁS NATURAL E BIOCOMBUSTÍVEIS – ANP, no uso de suas atribuições legais, com base na Resolução de Diretoria nº 405, de 21 de dezembro de 2005, torna público o seguinte ato:
Art. 1º. Para os fins desta Resolução ficam estabelecidas as seguintes definições:
I – Biodiesel – B100 – combustível composto de alquilésteres de ácidos graxos de cadeia longa, derivados de óleos vegetais ou de gorduras animais, conforme a especificação contida no Regulamento Técnico nº 4/2004 da Resolução ANP nº 42, de 24 de novembro de 2004.
II – Mistura óleo diesel/biodiesel – B2 – combustível comercial composto de 98% em volume de óleo diesel, conforme especificação da ANP, e 2% em volume de Biodiesel, que deverá atender à especificação prevista pela Portaria ANP nº 310 de 21 de dezembro de 2001 e suas alterações.
III – Marcador – substância que permita, através dos métodos analíticos estabelecidos pela ANP, a identificação de sua presença no Biodiesel – B100 e que, ao ser adicionada, em concentração não superior a 1ppm não altere suas características físico-químicas, e não interfira no grau de segurança para manuseio e uso desses produtos.
Art. 2º. Fica estabelecida a obrigatoriedade de adição de marcador ao Biodiesel – B100, tanto pelos produtores nacionais como pelos importadores.
§ 1º A adição de marcador no Biodiesel – B100 será realizada pelo produtor.
§ 2º A adição de marcação no Biodiesel importado deverá ocorrer no local e no momento de sua internação no país.
Art. 3º. Os custos de aquisição dos marcadores e dos serviços necessários à sua disponibilidade nos locais de marcação são de responsabilidade do produtor e do importador.
Parágrafo único. Os contratos de fornecimento do marcador deverão contemplar uma cláusula de exclusividade e confidencialidade sobre o tipo e as concentrações utilizadas para o mercado brasileiro.
Art. 4º. A não identificação da presença do marcador na mistura óleo diesel/biodiesel – B2, pelo método estabelecido pela ANP, caracterizará o descumprimento ao disposto nesta Resolução.
Art. 5º. O não atendimento ao disposto nesta Resolução sujeita os infratores às penalidades previstas na Lei nº 9.847 de 29 de outubro de 1999, sem prejuízo das responsabilidades de natureza civil e penal.
Art. 6º. Os casos não previstos nesta Resolução serão analisados e dirimidos pela ANP.
Art. 7º. Esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação.
HAROLDO BORGES RODRIGUES LIMA
Art. 1º. Para os fins desta Resolução ficam estabelecidas as seguintes definições:
I – Biodiesel – B100 – combustível composto de alquilésteres de ácidos graxos de cadeia longa, derivados de óleos vegetais ou de gorduras animais, conforme a especificação contida no Regulamento Técnico nº 4/2004 da Resolução ANP nº 42, de 24 de novembro de 2004.
II – Mistura óleo diesel/biodiesel – B2 – combustível comercial composto de 98% em volume de óleo diesel, conforme especificação da ANP, e 2% em volume de Biodiesel, que deverá atender à especificação prevista pela Portaria ANP nº 310 de 21 de dezembro de 2001 e suas alterações.
III – Marcador – substância que permita, através dos métodos analíticos estabelecidos pela ANP, a identificação de sua presença no Biodiesel – B100 e que, ao ser adicionada, em concentração não superior a 1ppm não altere suas características físico-químicas, e não interfira no grau de segurança para manuseio e uso desses produtos.
Art. 2º. Fica estabelecida a obrigatoriedade de adição de marcador ao Biodiesel – B100, tanto pelos produtores nacionais como pelos importadores.
§ 1º A adição de marcador no Biodiesel – B100 será realizada pelo produtor.
§ 2º A adição de marcação no Biodiesel importado deverá ocorrer no local e no momento de sua internação no país.
Art. 3º. Os custos de aquisição dos marcadores e dos serviços necessários à sua disponibilidade nos locais de marcação são de responsabilidade do produtor e do importador.
Parágrafo único. Os contratos de fornecimento do marcador deverão contemplar uma cláusula de exclusividade e confidencialidade sobre o tipo e as concentrações utilizadas para o mercado brasileiro.
Art. 4º. A não identificação da presença do marcador na mistura óleo diesel/biodiesel – B2, pelo método estabelecido pela ANP, caracterizará o descumprimento ao disposto nesta Resolução.
Art. 5º. O não atendimento ao disposto nesta Resolução sujeita os infratores às penalidades previstas na Lei nº 9.847 de 29 de outubro de 1999, sem prejuízo das responsabilidades de natureza civil e penal.
Art. 6º. Os casos não previstos nesta Resolução serão analisados e dirimidos pela ANP.
Art. 7º. Esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação.
HAROLDO BORGES RODRIGUES LIMA
ALTERNATIVAS ENERGÉTICAS PARA COMUNIDADES ISOLADAS DA AMAZÔNIA: A ENERGIA HIDROCINÉTICA NO MARACÁ, SUL DO AMAPÁ
Lúcia Tereza Ribeiro do Rosário(1), Rudi Van Els(2) e Antonio C. P. Brasil Júnior(3)
Resumo do artigo apresentado no Seminário ECOECO em novembro/2005.
(1) Mestranda em Economia ambiental e bolsista do Projeto Poraquê/UnB.
(2) Doutorando em Desenvolvimento Sustentável/UnB e Gerente do Projeto Poraquê.
(3) Prof. Doutor do CDS/UnB e Coordenador do Projeto Poraquê.
1 - Introdução
Mais de dois bilhões de pessoas não têm nenhum acesso a fontes de energia modernas, sendo que a maioria delas está vivendo em áreas rurais, o que dificulta o desenvolvimento econômico e social de suas populações (Bassam, 2001).
No Brasil, cerca de cinco milhões de domicílios brasileiros - em torno de 11 milhões de habitantes - não têm acesso à energia elétrica1. Somente na Região Amazônica, estima-se que existam 18,45% domicílios não atendidos pelo fornecimento de energia elétrica convencional.
No intuito de eliminar essa exclusão energética no país, o Governo Federal criou em 2004 o Programa “Luz para Todos” que pretende universalizar o acesso à energia elétrica até o final de 2008, atendendo aproximadamente quatro mil municípios e cerca de sete milhões de habitantes que hoje não têm acesso à energia. Entretanto, problemas relacionados aos desequilíbrios sócio-espaciais, como o alto custo da geração, transmissão e distribuição de energia hidrelétrica inviabilizam iniciativas de atendimento às necessidades energéticas de pequena escala, deixando desprovidas de abastecimento populações rurais e/ou extrativistas geograficamente isoladas dos grandes centros urbanos (Greentec, 2003).
Assim, uma possível solução para o problema é o uso de fontes renováveis, tendo em vista a abundância local de recursos como biomassa, energia solar, eólica e hidráulica, que oferecem energia em condições adequadas às realidades locais.
2. Energia elétrica em comunidades isoladas da Amazônia
A base da rede de distribuição de energia elétrica no Brasil é formada pelos seguintes sistemas: i) sistema que interliga as regiões Sul, Sudeste e Centro-oeste; ii) sistema que interliga as regiões Norte e Nordeste; e iii) sistemas isolados, formados por cerca de 300 localidades eletricamente isoladas umas das outras, principalmente na Região Norte, correspondendo a 2% do mercado energético brasileiro.
Para as grandes e médias cidades das regiões Norte e Nordeste, não interligadas à rede do sistema integrado, o governo oferece um subsídio para que as concessionárias atendam na modalidade de sistema isolado, principalmente por meio das termoelétricas. O subsídio é um mecanismo de compensação financeira, denominado Conta de Consumo de Combustíveis Fósseis (CCC) que permite uma tarifa ao consumidor final semelhante à tarifa de outros locais do país. Contudo, o subsídio só atende fornecedores de energia (termoelétricas) com capacidade mínima de 2MW. Assim, somente cidades com mais de 4.000 habitantes usufruem desse mecanismo (Els, 2005).
Ficam de fora, portanto, cidades menores e milhares de vilas e comunidades que não dispõe de uma sistemática de atendimento. Na sua grande maioria o fornecimento é realizado pela própria comunidade ou pelo poder municipal local. Normalmente os comunitários adquirem um grupo gerador com recursos dos moradores, da prefeitura local ou de políticos com objetivos eleitoreiros.
Uma alternativa encontrada pelas prefeituras para atendimento às comunidades isoladas é o sistema de quotas mensais de óleo diesel, distribuídos entre os moradores. Ultrapassando essa quota, os moradores assumem os custos adicionais, elevando o custo médio para acima da tarifa média praticada pelas concessionárias.
No âmbito do Governo Federal, consideram-se três importantes inserções em comunidades isoladas para atendimento à exclusão energética, realizadas nas últimas duas décadas:
1) O primeiro momento se inicia em meados dos anos 1990, com a implementação de diversos projetos de pesquisa tecnológica, caracterizados pela introdução de tecnologias de geração não convencionais pelos centros de pesquisas e universidades da região;
2) O segundo momento se inicia em 2002, com a implantação de sistemas alternativos fomentados pelo poder publico federal;
3) O terceiro momento, em 2004, com a universalização do acesso e uso da energia elétrica por meio do Programa “Luz para Todos”.
Foi a partir da criação do PROINFA,3 em 2002 (Lei n 10.438/2002, alterada pela Lei nº 10.762/2003) que o estado passou a ser responsável pela eletrificação das comunidades excluídas do sistema de energia elétrica. Segundo a Lei, as concessionárias de cada região são obrigadas a atender consumidores dessas comunidades, sendo que o ônus fica para o estado. O artigo 15 da mesma lei introduz a possibilidade da universalização ser realizada mediante o uso de fontes alternativas de energia, como a eólica, a biomassa e pequenas centrais hidrelétricas (Rosa, 2003, em Els, 2005):
“Art. 15 - Visando a universalização do serviço público de energia elétrica, a Aneel poderá promover licitações para outorga de permissões de serviço público de energia elétrica, em áreas já concedidas cujos contratos não contenham cláusula de exclusividade.
§ 3º - A permissionária será contratada para prestar serviço público de energia elétrica utilizando-se da forma convencional de distribuição, podendo, simultaneamente, também prestar o serviço mediante “associação ou contratação com agentes detentores de tecnologia ou titulares de autorização para fontes solar, eólica, biomassa e pequenas centrais hidrelétricas”. (grifo do autor) Lei 10.438/2002.
Mesmo considerando a adoção de energias alternativas, Els (2005), destaca como obstáculos para sua adoção por parte das comunidades isoladas, a informação, a formação educacional e a restrição orçamentária. Athayde et al., (2001) consideram que na disponibilização da energia, as autoridades municipais privilegiam investimentos na sede do município penalizando o atendimento às comunidades isoladas. Isso porque o retorno do investimento e a dificuldade de cobrança do uso da energia são inviáveis.
Assim, a introdução do uso de energias alternativas que levem em consideração o custo, a facilidade na gestão são fatores importantes para sua viabilidade.
3. Energias alternativas
A energia hidroelétrica é responsável por mais de 90% da produção total de eletricidade em 24 países (Coimbra e Figueiredo, 2003). No Brasil a energia elétrica representa 14,8 % de todo o consumo de energia. A geração dessa energia é basicamente em grandes usinas hidrelétricas e termoelétricas (Els, 2005).
Os impactos sociais, culturais e ambientais desse tipo de energia foram sendo contestados nos últimos anos, a ponto de colocar-se em questão a construção de novos empreendimentos hidroelétricos em muitos países, inclusive no Brasil. Seus defensores, contudo, justificam esses empreendimentos em virtude do desenvolvimento econômico e social que direta e indiretamente são proporcionados pelo fornecimento da energia. Por outro lado, seus oponentes questionam a construção das barragens em função dos impactos sociais, culturais e ambientais decorrentes de sua construção.
Entre os impactos ambientais, Coimbra e Figueiredo (2003) destacam os dados da Comissão Mundial de Barragens: i) a destruição de florestas e habitats selvagens; ii) a redução da biodiversidade aquática, a diminuição das áreas de desova a montante e a jusante, e o declínio dos serviços ambientais prestados pelas planícies aluviais a jusante, brejos, ecossistemas de rios, estuários e ecossistemas marinhos adjacentes; iii) impactos cumulativos sobre a qualidade da água, inundações naturais e a composição de espécies quando várias barragens são implantadas no mesmo rio; iv) emissão de gases do efeito estufa devido a decomposição da vegetação alagada e ao influxo de carbono na captação.
Coimbra e Figueiredo (2003) acrescentam ainda que os impactos sociais incidem sobre a vida, a subsistência e a saúde das comunidades afetadas com reflexos na cultura e na religião dos ribeirinhos. Os efeitos do alagamento destruíram o patrimônio cultural de comunidades ribeirinhas com a submersão e degradação de monumentos arqueológicos.
Muitas comunidades sequer são beneficiadas com a energia desses empreendimentos, justificados muitas vezes pela baixa densidade demográfica e as longas distâncias que tornam inviáveis economicamente suas instalações.
O atendimento a essas comunidades isoladas deve contemplar ações que tenham como princípio a conservação do meio ambiente, a participação social e o desenvolvimento local. As energias alternativas são importantes indutoras desse modelo de desenvolvimento. Entre elas destacam-se no Brasil: a eólica, a solar, a biomassa e turbinas hidráulicas de pequeno porte, conforme quadro abaixo:
Tipo de energia alternativa Características Impactos e limitações de uso
Energia solar O aquecimento de água e a geração fotovoltaica são os processos mais comuns de energia solar. Dos inúmeros projetos desenvolvidos em comunidades rurais e/ou isoladas do Brasil, pode-se dividi-los basicamente em três categorias: a) bombeamento de água, para abastecimento doméstico, irrigação e piscicultura; b) iluminação pública; e c) sistemas energéticos coletivos – eletrificação de escolas, postos de saúde e telefônicos e centros comunitários. De mínimo impacto ambiental, considerando que qualquer atividade humana gera impactos.
Como limitação destaca-se a necessidade de grandes áreas para instalação de painéis e o preço das placas de sílica que encarecem o painel de energia solar. Também as nuvens e a escuridão reduzem o armazenamento de energia e comprometem sua eficiência.
Energia eólica A energia eólica é utilizada há milhares de anos no bombeamento de água, moagem de grãos e outras aplicações que envolvem energia mecânica. É impulsionada pela força dos ventos que fazem girar as turbinas.
No Brasil o maior potencial está nas regiões litorâneas. Impactos sonoros e visuais: o ruído dos rotores varia de acordo com as especificações dos equipamentos e os impactos visuais decorrem do agrupamento de torres e aerogeradores. Destacam-se ainda as interferências eletromagnéticas que podem causar perturbações nos sistemas de comunicação e transmissão de dados.
É relativamente caro para ser adquirido diretamente por comunidades isoladas.
Biomassa Produzido a partir de matéria orgânica (vegetal ou animal). É convertido em energia por meio da combustão em fornos e caldeiras. Um exemplo é o aproveitamento do resíduo da cana-de-açúcar pelo setor sucro-alcooleiro.
O biodiesel, obtido a partir de óleos vegetais, tem sido usado em projetos experimentais na Amazônia. Entre as espécies utilizadas Silva e Berman (2004) destacam: o dendezeiro (Elaeis guineensis), o buritizeiro (Mauritia flexuosa), a copaibeira (Copaiphera multijuga), o babaçu (Orbignya martiana), a andiroba (Carapa guianensis) e a ucuúba (Virola surinamensis). E ainda, o aproveitamento dos resíduos de madeireiras. Um impacto ambiental do biodiesel é o desmatamento em virtude da crescente necessidade de grandes áreas de cultivo para a produção de biomassa.
Turbinas hidráulicas
e Turbina hidrocinética
É considerada um aprimoramento da roda d’água. Normalmente nos lugares onde há uma roda d’água, também há potencial para se usar uma turbina hidráulica.
A Turbina hidrocinética é uma turbina com os mesmos princípios das turbinas hidráulicas, entretanto, é de tamanho inferior, de fácil manuseio e baixo custo. O impacto ambiental é quase nulo. Não necessita de barragens e não interrompe a navegação ou a passagem da fauna aquática.
Uma limitação das turbinas hidráulicas convencionais é a ausência de produtos que atendam a capacidade energética mínima de pequenas comunidades isoladas (até 5kw, por exemplo.).
A turbina hidrocinética visa atender essa lacuna.
4 - Projeto Poraquê
4.1 - Histórico da Turbina Hidrocinética
No início da década de 1990, pesquisadores do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Brasília desenvolveram uma turbina hidrocinética, capaz de fornecer energia suficiente para instalações de até 3 kW aproveitando somente a energia cinética da correnteza dos rios. Seu funcionamento requer alguns pré-requisitos básicos: i) rios perenes com uma profundidade mínima durante o ano todo; ii) poucos detritos flutuantes, que possa se chocar contra a turbina; iii) velocidade mínima da correnteza das águas; e iv) possibilidade de ancoragem da turbina na margem ou no fundo do rio (Els, 2003).
A concepção mecânica simplificada é uma grande vantagem da turbina hidrocinética considerando que os componentes utilizados são de fácil reposição e baixo custo. Sua manutenção, também de custo mínimo, constitui um diferencial importante entre as energias alternativas, uma vez que a sua operacionalização é de responsabilidade do usuário final.
As principais peças usadas na confecção da turbina que precisam de manutenção, são componentes automotivos de fácil aquisição no comércio local, e podem ser manuseados por técnicos com conhecimentos básicos de mecânica automotiva.
A partir dessa experiência, uma comunidade isolada no município de Correntina, estado da Bahia foi beneficiada com a turbina, ao receber energia elétrica de pequena escala e de baixo impacto ambiental, suficiente para atendimento a um posto médico e uma escola de ensino fundamental.
Em dez anos de funcionamento, a tecnologia, que gera energia para um posto médico na região, tem se mostrado economicamente viável, ambientalmente responsável, e com potencial para ser implantada em outras regiões do Brasil. Recentemente a turbina hidrocinética foi testada nos rios amazônicos e deverá proporcionar energia para uma comunidade de ribeirinhos do PAE Maracá, no sul do Amapá.
4.2 - Objetivos do Projeto Poraquê
No PAE Maracá, na porção denominada Alto Maracá, a ocorrência de castanha-da-amazônia é a principal fonte de renda para centenas de extrativistas há muitas gerações. Entretanto, as grandes distâncias e os obstáculos geográficos dificultam a coleta e o escoamento da produção, submetendo os extrativistas a situações precárias de trabalho.
Para chegar ao local de armazenamento, partindo do ponto de coleta, os extrativistas são obrigados a enfrentar mais de vinte corredeiras, contornando pela floresta parte do percurso não navegável. No final da safra, que coincide com o início da seca dos rios, são obrigados a arrastar pela floresta a produção e os batelões . Além das dificuldades citadas, existe a possibilidade de comprometimento da qualidade da castanha, devido às condições de armazenamento a que submetem a produção.
Com base num diagnóstico sobre o potencial energético do Rio Caranã no sul do Amapá, observou-se que em suas corredeiras seria possível aproveitar a energia cinética utilizando a turbina hidrocinética para fornecimento de até 3 kW de energia elétrica. Ao mesmo tempo atenderia parte das metas de universalização de energia, previstas para serem concluídas em 2013. Em Mazagão o atendimento energético atual é de 59,41% (Tabela 1)..
Assim, a partir de uma parceria com o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS) surgiu o Projeto Poraquê, financiado pelo Ministério das Minas e Energia (MME) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
No PAE Maracá não existe nenhum tipo de beneficiamento da castanha em larga escala, somente a fabricação de biscoitos artesanais vendidos na Vila Maracá, situada à margem da BR-156, e, ocasionalmente, em feiras na capital amapaense.
A madeira é outra atividade econômica exercida pelos assentados que tem merecido a atenção das instituições ambientais, principalmente porque as exigências previstas no plano de manejo comunitário estão sendo desrespeitadas. Isto porque a madeira é o maior ativo ambiental da região, muito mais rentável que outros recursos florestais não madeireiros, e deixar de explorar este ativo, implica em deixar de gerar um valor econômico maior.
Para garantir a conservação da área de castanhais nativos ameaçados, é necessário contribuir com a geração de renda e atender as condições mínimas de sobrevivência dos extrativistas. Para tanto, é importante garantir um produto competitivo no mercado.
O projeto Poraquê, juntamente com os parceiros locais, tem entre seus objetivos, a instalação de um secador solar multi-uso para a pré-secagem de castanha-da-amazônia na região, garantindo assim maior qualidade do produto ao reduzir as condições favoráveis à proliferação de fungos, comuns nas amêndoas e que tem sido um fator importante na redução das exportações da castanha para a Europa e EUA. Além disso, a pré-secagem possibilitará um tempo mais longo de estocagem em condições apropriadas, pelo menos o tempo necessário até chegar à entressafra. Com isso, o simples armazenamento pode garantir que o extrativista do PAE Maracá obtenha um ganho significativo de renda, permitindo que ele estoque parte da coleta e “barganhe” um preço melhor na entressafra, além de remunerar e manter a estrutura de beneficiamento montada pela comunidade.
A produção de energia é suficiente para atender a infra-estrutura local do entreposto (iluminação e eletrodomésticos) e, uma vez que não há consumo de energia pelo secador multi-uso à noite, toda a potência da turbina poder ser usada neste horário para a iluminação ou outra demanda de interesse comunitário. Em razão da multiplicidade de benefícios que a energia proporciona, a instalação de um posto de saúde e uma escola de ensino fundamental são algumas dessas demandas que podem ser supridas pelo Projeto Poraquê que poderá ainda, otimizar o espaço com aulas noturnas para jovens e adultos.
O modelo de gestão do Projeto Poraquê está sendo construído com a participação dos principais atores locais, organizados em suas entidades representativas: Associação dos Extrativistas do Maracá (ATEXMA), Conselho Nacional de Seringueiros (CNS) e instituições públicas como a Prefeitura do Município de Mazagão, Instituto de Pesquisas Científicas e Teconológicas (IEPA), Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e Eletronorte. Ao final das atividades coordenadas pelo grupo de pesquisadores do Projeto Poraquê, espera-se que os assentados do Maracá, estejam aptos a assumir a gestão do projeto.
Para isso, estão previstos treinamentos para membros da comunidade, para entender o funcionamento da tecnologia, noções de conversão e uso da energia, e ainda, procedimentos básicos de operação da turbina e do secador solar multi-uso. Para maior eficácia no gerenciamento, os extrativistas receberão treinamentos que visem a manutenção do sistema em funcionamento.
Vale ressaltar que as especificidades sócio-culturais estão sendo respeitadas em todas as fases do Projeto Poraquê. Uma equipe interdisciplinar constituída de sociólogos, geógrafos, economistas, engenheiros mecânicos e de alimentos, atuam em diversas frentes, procurando agir de maneira participativa com os atores locais.
Essa metodologia participativa e interdisciplinar constitui um diferencial em projetos de gestão de energia alternativa em comunidades isoladas e tem como finalidade a autonomia na utilização da estrutura disponibilizada pelo projeto, após a saída dos pesquisadores.
Bibliografia
AGÊNCIA NACIONAL DE ENERGIA ELÉTRICA – ANEEL. Lei 10.438/2002. Disponível em http://www.aneel.gov.br/224.htm. Acesso em 01 de julho de 2005.
ATHAYDE, R. M.; MARTINS FILHO, J. S.L.; BRASIL JÚNIOR, A. C. P. Avaliação da sustentabilidade de sistemas de energia em comunidades isoladas. Artigo submetido ao Elsevier Preprint, novembro de 2001.
BARBOSA, L. R. Conservação da Biodiversidade e gestão Participativa na Amazônia: o caso da reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru, Amapá, Brasil. Relatório Holos – Paris, 2001.
BASSAM, N. El. Renewable energy for rural communities. Renewable Energy, junho de 2001.
BRASIL. Ministério das Minas e Energia – MME. Programa nacional de universalização do acesso e uso da energia elétrica – Manual de operacionalização. Disponível em: http://www.mme.gov.br. Acesso em 01 de julho de 2005.
COIMBRA, R. J. S.; FIGUEIREDO, R. M. B. Impactos Ambientais das Centrais Hidroelétricas. Faculdade de Ciências e Tecnologia. Universidade de Coimbra, 2003.
DINIZ, J.; ROSÁRIO, L T..; AGUIAR, J.; ELS, R. O papel das incubadoras de empresas e cooperativas nas cadeias produtivas extrativistas: caso do sul do Amapá. XV Seminário Anprotec, Curitiba, Paraná, 2005.
ELS, R. V. Energia elétrica para comunidades isoladas na Amazônia. Centro de Desenvolvimento Sustentável. Monografia apresentada no curso de Doutorado, 2005.
GREENTEC ECOLOGIA AMBIENTAL. Energia Hidrocinética - Estudo de Mercado, 2003.
INSTITUTO DE ESTUDOS AMAZÔNICOS E AMBIENTAIS – IEA E KONRAD ADENAUER STIFTUNG. Projeto de Assentamento Extrativista Maracá I, II, III – Plano de utilização – Amapá: IEA, Konrad Adenauer Stiftung, 1995.
SILVA, M. V. M.; BERMANN, C. O potencial energético para a geração de eletricidade no Estado do Pará. Anais do X Congresso Brasileiro de Energia - CBE, Volume II, 2004.
Notas
1. Censo 2000, IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
2. A castanha-da-amazônia é mais conhecida no Brasil como “castanha-do-brasil”. A nomenclatura “castanha-do-pará” está ligada a liderança do Pará como exportador por muitas décadas. Acre e Pará defendem a nomenclatura “castanha-do-brasil”. Porém, outros países amazônicos defendem a nomenclatura “castanha-da-amazônia”. Adotar-se-á neste artigo esta ultima nomenclatura, oficializada entre os paises amazônicos (DINIZ, 2005).
3. PROINFA - Programa de Incentivo às Fontes de Energia Elétrica.
4. Na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Iratapuru e na Reserva Extrativista do Cajarí, ambas no sul do Amapá, funcionam cooperativas de produtores que compram cerca de 40% da castanha-da-amazônia, coletada para beneficiamento e comercialização, com menor interferência de intermediários em comparação com o PAE Maracá.
5. As Reservas Extrativistas são unidades de conservação (UC) de uso sustentável e foram criadas a partir das reivindicações do movimento de seringueiros na década de 80. Essa modalidade de UC consolidou-se como uma alternativa capaz de suprir as deficiências da legislação, visto que contempla a proteção das práticas, técnicas e da cultura das populações tradicionais, assegurando o uso sustentável dos recursos naturais da unidade (Barbosa, 2001).
Fonte: Corrêa Neto Noticias
Resumo do artigo apresentado no Seminário ECOECO em novembro/2005.
(1) Mestranda em Economia ambiental e bolsista do Projeto Poraquê/UnB.
(2) Doutorando em Desenvolvimento Sustentável/UnB e Gerente do Projeto Poraquê.
(3) Prof. Doutor do CDS/UnB e Coordenador do Projeto Poraquê.
1 - Introdução
Mais de dois bilhões de pessoas não têm nenhum acesso a fontes de energia modernas, sendo que a maioria delas está vivendo em áreas rurais, o que dificulta o desenvolvimento econômico e social de suas populações (Bassam, 2001).
No Brasil, cerca de cinco milhões de domicílios brasileiros - em torno de 11 milhões de habitantes - não têm acesso à energia elétrica1. Somente na Região Amazônica, estima-se que existam 18,45% domicílios não atendidos pelo fornecimento de energia elétrica convencional.
No intuito de eliminar essa exclusão energética no país, o Governo Federal criou em 2004 o Programa “Luz para Todos” que pretende universalizar o acesso à energia elétrica até o final de 2008, atendendo aproximadamente quatro mil municípios e cerca de sete milhões de habitantes que hoje não têm acesso à energia. Entretanto, problemas relacionados aos desequilíbrios sócio-espaciais, como o alto custo da geração, transmissão e distribuição de energia hidrelétrica inviabilizam iniciativas de atendimento às necessidades energéticas de pequena escala, deixando desprovidas de abastecimento populações rurais e/ou extrativistas geograficamente isoladas dos grandes centros urbanos (Greentec, 2003).
Assim, uma possível solução para o problema é o uso de fontes renováveis, tendo em vista a abundância local de recursos como biomassa, energia solar, eólica e hidráulica, que oferecem energia em condições adequadas às realidades locais.
2. Energia elétrica em comunidades isoladas da Amazônia
A base da rede de distribuição de energia elétrica no Brasil é formada pelos seguintes sistemas: i) sistema que interliga as regiões Sul, Sudeste e Centro-oeste; ii) sistema que interliga as regiões Norte e Nordeste; e iii) sistemas isolados, formados por cerca de 300 localidades eletricamente isoladas umas das outras, principalmente na Região Norte, correspondendo a 2% do mercado energético brasileiro.
Para as grandes e médias cidades das regiões Norte e Nordeste, não interligadas à rede do sistema integrado, o governo oferece um subsídio para que as concessionárias atendam na modalidade de sistema isolado, principalmente por meio das termoelétricas. O subsídio é um mecanismo de compensação financeira, denominado Conta de Consumo de Combustíveis Fósseis (CCC) que permite uma tarifa ao consumidor final semelhante à tarifa de outros locais do país. Contudo, o subsídio só atende fornecedores de energia (termoelétricas) com capacidade mínima de 2MW. Assim, somente cidades com mais de 4.000 habitantes usufruem desse mecanismo (Els, 2005).
Ficam de fora, portanto, cidades menores e milhares de vilas e comunidades que não dispõe de uma sistemática de atendimento. Na sua grande maioria o fornecimento é realizado pela própria comunidade ou pelo poder municipal local. Normalmente os comunitários adquirem um grupo gerador com recursos dos moradores, da prefeitura local ou de políticos com objetivos eleitoreiros.
Uma alternativa encontrada pelas prefeituras para atendimento às comunidades isoladas é o sistema de quotas mensais de óleo diesel, distribuídos entre os moradores. Ultrapassando essa quota, os moradores assumem os custos adicionais, elevando o custo médio para acima da tarifa média praticada pelas concessionárias.
No âmbito do Governo Federal, consideram-se três importantes inserções em comunidades isoladas para atendimento à exclusão energética, realizadas nas últimas duas décadas:
1) O primeiro momento se inicia em meados dos anos 1990, com a implementação de diversos projetos de pesquisa tecnológica, caracterizados pela introdução de tecnologias de geração não convencionais pelos centros de pesquisas e universidades da região;
2) O segundo momento se inicia em 2002, com a implantação de sistemas alternativos fomentados pelo poder publico federal;
3) O terceiro momento, em 2004, com a universalização do acesso e uso da energia elétrica por meio do Programa “Luz para Todos”.
Foi a partir da criação do PROINFA,3 em 2002 (Lei n 10.438/2002, alterada pela Lei nº 10.762/2003) que o estado passou a ser responsável pela eletrificação das comunidades excluídas do sistema de energia elétrica. Segundo a Lei, as concessionárias de cada região são obrigadas a atender consumidores dessas comunidades, sendo que o ônus fica para o estado. O artigo 15 da mesma lei introduz a possibilidade da universalização ser realizada mediante o uso de fontes alternativas de energia, como a eólica, a biomassa e pequenas centrais hidrelétricas (Rosa, 2003, em Els, 2005):
“Art. 15 - Visando a universalização do serviço público de energia elétrica, a Aneel poderá promover licitações para outorga de permissões de serviço público de energia elétrica, em áreas já concedidas cujos contratos não contenham cláusula de exclusividade.
§ 3º - A permissionária será contratada para prestar serviço público de energia elétrica utilizando-se da forma convencional de distribuição, podendo, simultaneamente, também prestar o serviço mediante “associação ou contratação com agentes detentores de tecnologia ou titulares de autorização para fontes solar, eólica, biomassa e pequenas centrais hidrelétricas”. (grifo do autor) Lei 10.438/2002.
Mesmo considerando a adoção de energias alternativas, Els (2005), destaca como obstáculos para sua adoção por parte das comunidades isoladas, a informação, a formação educacional e a restrição orçamentária. Athayde et al., (2001) consideram que na disponibilização da energia, as autoridades municipais privilegiam investimentos na sede do município penalizando o atendimento às comunidades isoladas. Isso porque o retorno do investimento e a dificuldade de cobrança do uso da energia são inviáveis.
Assim, a introdução do uso de energias alternativas que levem em consideração o custo, a facilidade na gestão são fatores importantes para sua viabilidade.
3. Energias alternativas
A energia hidroelétrica é responsável por mais de 90% da produção total de eletricidade em 24 países (Coimbra e Figueiredo, 2003). No Brasil a energia elétrica representa 14,8 % de todo o consumo de energia. A geração dessa energia é basicamente em grandes usinas hidrelétricas e termoelétricas (Els, 2005).
Os impactos sociais, culturais e ambientais desse tipo de energia foram sendo contestados nos últimos anos, a ponto de colocar-se em questão a construção de novos empreendimentos hidroelétricos em muitos países, inclusive no Brasil. Seus defensores, contudo, justificam esses empreendimentos em virtude do desenvolvimento econômico e social que direta e indiretamente são proporcionados pelo fornecimento da energia. Por outro lado, seus oponentes questionam a construção das barragens em função dos impactos sociais, culturais e ambientais decorrentes de sua construção.
Entre os impactos ambientais, Coimbra e Figueiredo (2003) destacam os dados da Comissão Mundial de Barragens: i) a destruição de florestas e habitats selvagens; ii) a redução da biodiversidade aquática, a diminuição das áreas de desova a montante e a jusante, e o declínio dos serviços ambientais prestados pelas planícies aluviais a jusante, brejos, ecossistemas de rios, estuários e ecossistemas marinhos adjacentes; iii) impactos cumulativos sobre a qualidade da água, inundações naturais e a composição de espécies quando várias barragens são implantadas no mesmo rio; iv) emissão de gases do efeito estufa devido a decomposição da vegetação alagada e ao influxo de carbono na captação.
Coimbra e Figueiredo (2003) acrescentam ainda que os impactos sociais incidem sobre a vida, a subsistência e a saúde das comunidades afetadas com reflexos na cultura e na religião dos ribeirinhos. Os efeitos do alagamento destruíram o patrimônio cultural de comunidades ribeirinhas com a submersão e degradação de monumentos arqueológicos.
Muitas comunidades sequer são beneficiadas com a energia desses empreendimentos, justificados muitas vezes pela baixa densidade demográfica e as longas distâncias que tornam inviáveis economicamente suas instalações.
O atendimento a essas comunidades isoladas deve contemplar ações que tenham como princípio a conservação do meio ambiente, a participação social e o desenvolvimento local. As energias alternativas são importantes indutoras desse modelo de desenvolvimento. Entre elas destacam-se no Brasil: a eólica, a solar, a biomassa e turbinas hidráulicas de pequeno porte, conforme quadro abaixo:
Tipo de energia alternativa Características Impactos e limitações de uso
Energia solar O aquecimento de água e a geração fotovoltaica são os processos mais comuns de energia solar. Dos inúmeros projetos desenvolvidos em comunidades rurais e/ou isoladas do Brasil, pode-se dividi-los basicamente em três categorias: a) bombeamento de água, para abastecimento doméstico, irrigação e piscicultura; b) iluminação pública; e c) sistemas energéticos coletivos – eletrificação de escolas, postos de saúde e telefônicos e centros comunitários. De mínimo impacto ambiental, considerando que qualquer atividade humana gera impactos.
Como limitação destaca-se a necessidade de grandes áreas para instalação de painéis e o preço das placas de sílica que encarecem o painel de energia solar. Também as nuvens e a escuridão reduzem o armazenamento de energia e comprometem sua eficiência.
Energia eólica A energia eólica é utilizada há milhares de anos no bombeamento de água, moagem de grãos e outras aplicações que envolvem energia mecânica. É impulsionada pela força dos ventos que fazem girar as turbinas.
No Brasil o maior potencial está nas regiões litorâneas. Impactos sonoros e visuais: o ruído dos rotores varia de acordo com as especificações dos equipamentos e os impactos visuais decorrem do agrupamento de torres e aerogeradores. Destacam-se ainda as interferências eletromagnéticas que podem causar perturbações nos sistemas de comunicação e transmissão de dados.
É relativamente caro para ser adquirido diretamente por comunidades isoladas.
Biomassa Produzido a partir de matéria orgânica (vegetal ou animal). É convertido em energia por meio da combustão em fornos e caldeiras. Um exemplo é o aproveitamento do resíduo da cana-de-açúcar pelo setor sucro-alcooleiro.
O biodiesel, obtido a partir de óleos vegetais, tem sido usado em projetos experimentais na Amazônia. Entre as espécies utilizadas Silva e Berman (2004) destacam: o dendezeiro (Elaeis guineensis), o buritizeiro (Mauritia flexuosa), a copaibeira (Copaiphera multijuga), o babaçu (Orbignya martiana), a andiroba (Carapa guianensis) e a ucuúba (Virola surinamensis). E ainda, o aproveitamento dos resíduos de madeireiras. Um impacto ambiental do biodiesel é o desmatamento em virtude da crescente necessidade de grandes áreas de cultivo para a produção de biomassa.
Turbinas hidráulicas
e Turbina hidrocinética
É considerada um aprimoramento da roda d’água. Normalmente nos lugares onde há uma roda d’água, também há potencial para se usar uma turbina hidráulica.
A Turbina hidrocinética é uma turbina com os mesmos princípios das turbinas hidráulicas, entretanto, é de tamanho inferior, de fácil manuseio e baixo custo. O impacto ambiental é quase nulo. Não necessita de barragens e não interrompe a navegação ou a passagem da fauna aquática.
Uma limitação das turbinas hidráulicas convencionais é a ausência de produtos que atendam a capacidade energética mínima de pequenas comunidades isoladas (até 5kw, por exemplo.).
A turbina hidrocinética visa atender essa lacuna.
4 - Projeto Poraquê
4.1 - Histórico da Turbina Hidrocinética
No início da década de 1990, pesquisadores do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Brasília desenvolveram uma turbina hidrocinética, capaz de fornecer energia suficiente para instalações de até 3 kW aproveitando somente a energia cinética da correnteza dos rios. Seu funcionamento requer alguns pré-requisitos básicos: i) rios perenes com uma profundidade mínima durante o ano todo; ii) poucos detritos flutuantes, que possa se chocar contra a turbina; iii) velocidade mínima da correnteza das águas; e iv) possibilidade de ancoragem da turbina na margem ou no fundo do rio (Els, 2003).
A concepção mecânica simplificada é uma grande vantagem da turbina hidrocinética considerando que os componentes utilizados são de fácil reposição e baixo custo. Sua manutenção, também de custo mínimo, constitui um diferencial importante entre as energias alternativas, uma vez que a sua operacionalização é de responsabilidade do usuário final.
As principais peças usadas na confecção da turbina que precisam de manutenção, são componentes automotivos de fácil aquisição no comércio local, e podem ser manuseados por técnicos com conhecimentos básicos de mecânica automotiva.
A partir dessa experiência, uma comunidade isolada no município de Correntina, estado da Bahia foi beneficiada com a turbina, ao receber energia elétrica de pequena escala e de baixo impacto ambiental, suficiente para atendimento a um posto médico e uma escola de ensino fundamental.
Em dez anos de funcionamento, a tecnologia, que gera energia para um posto médico na região, tem se mostrado economicamente viável, ambientalmente responsável, e com potencial para ser implantada em outras regiões do Brasil. Recentemente a turbina hidrocinética foi testada nos rios amazônicos e deverá proporcionar energia para uma comunidade de ribeirinhos do PAE Maracá, no sul do Amapá.
4.2 - Objetivos do Projeto Poraquê
No PAE Maracá, na porção denominada Alto Maracá, a ocorrência de castanha-da-amazônia é a principal fonte de renda para centenas de extrativistas há muitas gerações. Entretanto, as grandes distâncias e os obstáculos geográficos dificultam a coleta e o escoamento da produção, submetendo os extrativistas a situações precárias de trabalho.
Para chegar ao local de armazenamento, partindo do ponto de coleta, os extrativistas são obrigados a enfrentar mais de vinte corredeiras, contornando pela floresta parte do percurso não navegável. No final da safra, que coincide com o início da seca dos rios, são obrigados a arrastar pela floresta a produção e os batelões . Além das dificuldades citadas, existe a possibilidade de comprometimento da qualidade da castanha, devido às condições de armazenamento a que submetem a produção.
Com base num diagnóstico sobre o potencial energético do Rio Caranã no sul do Amapá, observou-se que em suas corredeiras seria possível aproveitar a energia cinética utilizando a turbina hidrocinética para fornecimento de até 3 kW de energia elétrica. Ao mesmo tempo atenderia parte das metas de universalização de energia, previstas para serem concluídas em 2013. Em Mazagão o atendimento energético atual é de 59,41% (Tabela 1)..
Assim, a partir de uma parceria com o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS) surgiu o Projeto Poraquê, financiado pelo Ministério das Minas e Energia (MME) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
No PAE Maracá não existe nenhum tipo de beneficiamento da castanha em larga escala, somente a fabricação de biscoitos artesanais vendidos na Vila Maracá, situada à margem da BR-156, e, ocasionalmente, em feiras na capital amapaense.
A madeira é outra atividade econômica exercida pelos assentados que tem merecido a atenção das instituições ambientais, principalmente porque as exigências previstas no plano de manejo comunitário estão sendo desrespeitadas. Isto porque a madeira é o maior ativo ambiental da região, muito mais rentável que outros recursos florestais não madeireiros, e deixar de explorar este ativo, implica em deixar de gerar um valor econômico maior.
Para garantir a conservação da área de castanhais nativos ameaçados, é necessário contribuir com a geração de renda e atender as condições mínimas de sobrevivência dos extrativistas. Para tanto, é importante garantir um produto competitivo no mercado.
O projeto Poraquê, juntamente com os parceiros locais, tem entre seus objetivos, a instalação de um secador solar multi-uso para a pré-secagem de castanha-da-amazônia na região, garantindo assim maior qualidade do produto ao reduzir as condições favoráveis à proliferação de fungos, comuns nas amêndoas e que tem sido um fator importante na redução das exportações da castanha para a Europa e EUA. Além disso, a pré-secagem possibilitará um tempo mais longo de estocagem em condições apropriadas, pelo menos o tempo necessário até chegar à entressafra. Com isso, o simples armazenamento pode garantir que o extrativista do PAE Maracá obtenha um ganho significativo de renda, permitindo que ele estoque parte da coleta e “barganhe” um preço melhor na entressafra, além de remunerar e manter a estrutura de beneficiamento montada pela comunidade.
A produção de energia é suficiente para atender a infra-estrutura local do entreposto (iluminação e eletrodomésticos) e, uma vez que não há consumo de energia pelo secador multi-uso à noite, toda a potência da turbina poder ser usada neste horário para a iluminação ou outra demanda de interesse comunitário. Em razão da multiplicidade de benefícios que a energia proporciona, a instalação de um posto de saúde e uma escola de ensino fundamental são algumas dessas demandas que podem ser supridas pelo Projeto Poraquê que poderá ainda, otimizar o espaço com aulas noturnas para jovens e adultos.
O modelo de gestão do Projeto Poraquê está sendo construído com a participação dos principais atores locais, organizados em suas entidades representativas: Associação dos Extrativistas do Maracá (ATEXMA), Conselho Nacional de Seringueiros (CNS) e instituições públicas como a Prefeitura do Município de Mazagão, Instituto de Pesquisas Científicas e Teconológicas (IEPA), Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e Eletronorte. Ao final das atividades coordenadas pelo grupo de pesquisadores do Projeto Poraquê, espera-se que os assentados do Maracá, estejam aptos a assumir a gestão do projeto.
Para isso, estão previstos treinamentos para membros da comunidade, para entender o funcionamento da tecnologia, noções de conversão e uso da energia, e ainda, procedimentos básicos de operação da turbina e do secador solar multi-uso. Para maior eficácia no gerenciamento, os extrativistas receberão treinamentos que visem a manutenção do sistema em funcionamento.
Vale ressaltar que as especificidades sócio-culturais estão sendo respeitadas em todas as fases do Projeto Poraquê. Uma equipe interdisciplinar constituída de sociólogos, geógrafos, economistas, engenheiros mecânicos e de alimentos, atuam em diversas frentes, procurando agir de maneira participativa com os atores locais.
Essa metodologia participativa e interdisciplinar constitui um diferencial em projetos de gestão de energia alternativa em comunidades isoladas e tem como finalidade a autonomia na utilização da estrutura disponibilizada pelo projeto, após a saída dos pesquisadores.
Bibliografia
AGÊNCIA NACIONAL DE ENERGIA ELÉTRICA – ANEEL. Lei 10.438/2002. Disponível em http://www.aneel.gov.br/224.htm. Acesso em 01 de julho de 2005.
ATHAYDE, R. M.; MARTINS FILHO, J. S.L.; BRASIL JÚNIOR, A. C. P. Avaliação da sustentabilidade de sistemas de energia em comunidades isoladas. Artigo submetido ao Elsevier Preprint, novembro de 2001.
BARBOSA, L. R. Conservação da Biodiversidade e gestão Participativa na Amazônia: o caso da reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru, Amapá, Brasil. Relatório Holos – Paris, 2001.
BASSAM, N. El. Renewable energy for rural communities. Renewable Energy, junho de 2001.
BRASIL. Ministério das Minas e Energia – MME. Programa nacional de universalização do acesso e uso da energia elétrica – Manual de operacionalização. Disponível em: http://www.mme.gov.br. Acesso em 01 de julho de 2005.
COIMBRA, R. J. S.; FIGUEIREDO, R. M. B. Impactos Ambientais das Centrais Hidroelétricas. Faculdade de Ciências e Tecnologia. Universidade de Coimbra, 2003.
DINIZ, J.; ROSÁRIO, L T..; AGUIAR, J.; ELS, R. O papel das incubadoras de empresas e cooperativas nas cadeias produtivas extrativistas: caso do sul do Amapá. XV Seminário Anprotec, Curitiba, Paraná, 2005.
ELS, R. V. Energia elétrica para comunidades isoladas na Amazônia. Centro de Desenvolvimento Sustentável. Monografia apresentada no curso de Doutorado, 2005.
GREENTEC ECOLOGIA AMBIENTAL. Energia Hidrocinética - Estudo de Mercado, 2003.
INSTITUTO DE ESTUDOS AMAZÔNICOS E AMBIENTAIS – IEA E KONRAD ADENAUER STIFTUNG. Projeto de Assentamento Extrativista Maracá I, II, III – Plano de utilização – Amapá: IEA, Konrad Adenauer Stiftung, 1995.
SILVA, M. V. M.; BERMANN, C. O potencial energético para a geração de eletricidade no Estado do Pará. Anais do X Congresso Brasileiro de Energia - CBE, Volume II, 2004.
Notas
1. Censo 2000, IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
2. A castanha-da-amazônia é mais conhecida no Brasil como “castanha-do-brasil”. A nomenclatura “castanha-do-pará” está ligada a liderança do Pará como exportador por muitas décadas. Acre e Pará defendem a nomenclatura “castanha-do-brasil”. Porém, outros países amazônicos defendem a nomenclatura “castanha-da-amazônia”. Adotar-se-á neste artigo esta ultima nomenclatura, oficializada entre os paises amazônicos (DINIZ, 2005).
3. PROINFA - Programa de Incentivo às Fontes de Energia Elétrica.
4. Na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Iratapuru e na Reserva Extrativista do Cajarí, ambas no sul do Amapá, funcionam cooperativas de produtores que compram cerca de 40% da castanha-da-amazônia, coletada para beneficiamento e comercialização, com menor interferência de intermediários em comparação com o PAE Maracá.
5. As Reservas Extrativistas são unidades de conservação (UC) de uso sustentável e foram criadas a partir das reivindicações do movimento de seringueiros na década de 80. Essa modalidade de UC consolidou-se como uma alternativa capaz de suprir as deficiências da legislação, visto que contempla a proteção das práticas, técnicas e da cultura das populações tradicionais, assegurando o uso sustentável dos recursos naturais da unidade (Barbosa, 2001).
Fonte: Corrêa Neto Noticias
quarta-feira, 10 de janeiro de 2007
DuPont e BP anunciam parceria no biobutanol
A DuPont, terceira maior indústria química dos Estados Unidos, e a britânica BP anunciaram ontem uma parceria global para desenvolver e comercializar biocombustíveis para se tornarem líderes nesse segmento. O primeiro produto, que será lançado comercialmente em 2007 é o biobutanol.
Rubens Machado Júnior, vice-presidente de operações e tecnologia da DuPont para América Latina, diz que o processo é semelhante ao da produção do etanol. O biobutanol é obtido a partir da fermentação de uma matéria-prima, que pode ser beterraba, cana-de-açúcar, trigo, milho ou mandioca. A diferença é que sua molécula possui dois carbonos a mais que o etanol. "Por causa disso, o biobutanol tem potencial de energia 20% maior que o etanol", afirma Júnior.
Segundo comunicado feito pelas duas empresas, o potencial energético do biobutanol é 5% inferior ao dos combustíveis fósseis. O potencial do etanol é 25% inferior. As empresas também apontam como vantagem a redução das emissões de carbono na atmosfera com o uso do combustível limpo. Estima-se que hoje 2% dos combustíveis consumidos no mundo são de fontes renováveis e a perspectiva é que essa participação chegue a 30% nesta década.
As empresas informaram que irão instalar a primeira unidade de produção do biobutanol no Reino Unido. No país, a matéria-prima adotada será a beterraba. A produção será feita em parceria com a British Sugar, subsidiária da Associated British Foods (ABF). George Weston, diretor executivo da ABF, disse ao Financial Times que a unidade pode custar até US$ 46 milhões e seria gerenciada pela BP.
Machado Júnior, da DuPont, diz que o biocombustível já é testado nos países em que atua, inclusive no Brasil. Entre as matérias-primas em avaliação estão cana, milho e mandioca. Segundo o executivo, a prioridade é o mercado europeu, mas a empresa não descarta a possibilidade de entrar no mercado brasileiro futuramente.
Conforme Machado Júnior, a Dupont desenvolve produtos com matérias-primas renováveis há dez anos. Recentemente, a empresa lançou linhas de polímeros e fibras obtidos a partir de recursos renováveis, como o milho, para substituir os subprodutos do petróleo.
Em abril, a empresa anunciou a criação da divisão de biocombustíveis, que também pesquisa tecnologias para produção de etanol a partir do milho e da madeira. Hoje a divisão desenvolve híbridos de milho para produção de etanol. O negócio de biocombustíveis movimenta US$ 300 milhões por ano. Em 2005, a Dupont faturou globalmente US$ 26,6 bilhões, sendo que US$ 1 bilhão vieram do Brasil.
A produção de biocombustíveis - como biobutanol, etanol e biodiesel - tem atraído investimentos Brasil, EUA e outros países. No entanto, ainda há dúvidas quanto ao sucesso das iniciativas. Estudo feito pela Comissão Européia aponta como empecilhos a falta de legislação para o comércio internacional e uma limitação geográfica: o plantio de culturas para produzir biocombustíveis em volume suficiente para substituir 5,75% da gasolina e do diesel na UE tomaria 19% da área plantada na região.
Fonte:
Rubens Machado Júnior, vice-presidente de operações e tecnologia da DuPont para América Latina, diz que o processo é semelhante ao da produção do etanol. O biobutanol é obtido a partir da fermentação de uma matéria-prima, que pode ser beterraba, cana-de-açúcar, trigo, milho ou mandioca. A diferença é que sua molécula possui dois carbonos a mais que o etanol. "Por causa disso, o biobutanol tem potencial de energia 20% maior que o etanol", afirma Júnior.
Segundo comunicado feito pelas duas empresas, o potencial energético do biobutanol é 5% inferior ao dos combustíveis fósseis. O potencial do etanol é 25% inferior. As empresas também apontam como vantagem a redução das emissões de carbono na atmosfera com o uso do combustível limpo. Estima-se que hoje 2% dos combustíveis consumidos no mundo são de fontes renováveis e a perspectiva é que essa participação chegue a 30% nesta década.
As empresas informaram que irão instalar a primeira unidade de produção do biobutanol no Reino Unido. No país, a matéria-prima adotada será a beterraba. A produção será feita em parceria com a British Sugar, subsidiária da Associated British Foods (ABF). George Weston, diretor executivo da ABF, disse ao Financial Times que a unidade pode custar até US$ 46 milhões e seria gerenciada pela BP.
Machado Júnior, da DuPont, diz que o biocombustível já é testado nos países em que atua, inclusive no Brasil. Entre as matérias-primas em avaliação estão cana, milho e mandioca. Segundo o executivo, a prioridade é o mercado europeu, mas a empresa não descarta a possibilidade de entrar no mercado brasileiro futuramente.
Conforme Machado Júnior, a Dupont desenvolve produtos com matérias-primas renováveis há dez anos. Recentemente, a empresa lançou linhas de polímeros e fibras obtidos a partir de recursos renováveis, como o milho, para substituir os subprodutos do petróleo.
Em abril, a empresa anunciou a criação da divisão de biocombustíveis, que também pesquisa tecnologias para produção de etanol a partir do milho e da madeira. Hoje a divisão desenvolve híbridos de milho para produção de etanol. O negócio de biocombustíveis movimenta US$ 300 milhões por ano. Em 2005, a Dupont faturou globalmente US$ 26,6 bilhões, sendo que US$ 1 bilhão vieram do Brasil.
A produção de biocombustíveis - como biobutanol, etanol e biodiesel - tem atraído investimentos Brasil, EUA e outros países. No entanto, ainda há dúvidas quanto ao sucesso das iniciativas. Estudo feito pela Comissão Européia aponta como empecilhos a falta de legislação para o comércio internacional e uma limitação geográfica: o plantio de culturas para produzir biocombustíveis em volume suficiente para substituir 5,75% da gasolina e do diesel na UE tomaria 19% da área plantada na região.
Fonte:
Plantas do futuro
Agência FAPESP - O número não é preciso, mas é grande: segundo o Ministério do Meio Ambiente (MMA), a diversidade de plantas no Brasil gira em torno de 50 mil espécies. Para evitar que aquelas com elevado potencial de mercado se tornem conhecidas no exterior antes de serem exploradas por aqui, a entidade decidiu relacionar alguns destaques.
O resultado são 775 espécies, chamadas de “plantas do futuro”. O trabalho de identificação, que acaba de ser finalizado, durou dois anos e foi realizado por equipes de agrônomos e biólogos coordenadas pelo MMA nas cinco regiões do país. Espécies desconhecidas ou que já estejam sendo exploradas pela economia regional, apesar de ainda não alcançarem projeção de mercado em âmbito nacional, tiveram preferência na escolha.
“A lista será usada para subsidiar políticas nacionais de conservação e de uso sustentável”, disse Lídio Coradin, coordenador da área de Recursos Genéticos da Secretaria de Biodiversidade e Florestas do MMA, à Agência FAPESP.
“Como essas plantas representam boas oportunidades de negócio, a intenção é que a lista incentive a criação de novos mercados produtores e também de tecnologias que garantam a disponibilidade das espécies à altura da produção comercial”, explicou.
Com a fase de levantamento concluída, os detalhes técnicos e os potenciais econômicos de cada espécie serão divulgados junto a produtores e empresários. De acordo com Coradin, o trabalho contará com o lançamento de cinco publicações, cada uma representando uma região do país, no segundo semestre.
“Temos a maior biodiversidade do planeta, capacidade técnica instalada e competência em recursos humanos, mas ainda falta articulação entre pequenos produtores, empresários e instituições de pesquisa”, afirmou o engenheiro agrônomo.
Além de incentivar essa articulação e atrair novos investimentos ao setor, os livros servirão de base para diferenciar plantas prontas para serem exploradas pelo setor empresarial e as que ainda precisam de alguma atividade de pesquisa.
A lista completa das espécies, que foram divididas por grupos de uso – como ornamentais, alimentícias e frutíferas, fibrosas, medicinais, aromáticas e adequadas para a fabricação de óleos – será publicada no início de fevereiro no site do MMA, que planeja ainda uma série de seminários regionais para apresentar potencialidades desses recursos naturais aos diferentes segmentos da sociedade.
Falta de cultura de valorização
Há vários exemplos de valorização externa antes da interna. Lídio Coradin lembra que empresários da Nova Zelândia produzem atualmente sucos, biscoitos, geléias, óleos e até espumante com uma fruta nativa do Brasil: a goiaba serrana (Acca seloviana). “Mais de 20 produtos já foram lançados. Esse é um exemplo típico de planta que foi negligenciada ou subutilizada no Brasil e está gerando riqueza em outro país, apesar de ser conhecida nacionalmente há mais de 50 anos”, disse.
Além da goiaba serrana, a pupunheira (Bactris gasipaes), uma palmeira de clima tropical em que todas as partes podem ser aproveitadas economicamente, em especial seu fruto (pupunha) e o palmito, é outra espécie de interesse que integra a lista.
“Ela é uma das plantas mais versáteis, chegando a produzir cinco toneladas de palmito por hectare sem necessidade de eliminar suas mudas, como ocorre normalmente com outras espécies”, disse Coradin. Várias hastes de palmito são produzidas em uma mesma muda, o que permite a colheita enquanto a planta produz novas hastes.
Segundo o coordenador da área de Recursos Genéticos da Secretaria de Biodiversidade e Florestas do MMA, um único fruto de pupunha chega a produzir 16% de proteína, o que o torna viável para a produção de bolos e tortas em substituição ao trigo, além de poder ser frito e servido como aperitivo. A produção de biodiesel também seria outra aplicação viável.
“Vários estudos comprovam que a pupunheira é capaz de gerar quase 20 toneladas de óleo por hectare para a produção do biodiesel. A soja, que não é uma cultura nativa do Brasil, produz apenas 500 litros de óleo por hectare”, compara.
Açaí (Euterpe oleracea), cupuaçu (Theobroma grandiflorum), bacuri (Platonia insignis), murici (Byrsonima sericeae) e camu-camu (Myrciaria dubia) são algumas espécies que também fazem parte da lista.
“Algumas delas já estão sendo exportadas, como o açaí e o cupuaçu. Mas ainda precisamos criar uma cultura de valorização do que é produzido em território nacional. É só olhar para a maioria dos hotéis brasileiros, por exemplo, que preferem servir frutas exóticas ou não nativas do Brasil, como melão, kiwi, melancia ou mamão”, afirma Coradin.
O resultado são 775 espécies, chamadas de “plantas do futuro”. O trabalho de identificação, que acaba de ser finalizado, durou dois anos e foi realizado por equipes de agrônomos e biólogos coordenadas pelo MMA nas cinco regiões do país. Espécies desconhecidas ou que já estejam sendo exploradas pela economia regional, apesar de ainda não alcançarem projeção de mercado em âmbito nacional, tiveram preferência na escolha.
“A lista será usada para subsidiar políticas nacionais de conservação e de uso sustentável”, disse Lídio Coradin, coordenador da área de Recursos Genéticos da Secretaria de Biodiversidade e Florestas do MMA, à Agência FAPESP.
“Como essas plantas representam boas oportunidades de negócio, a intenção é que a lista incentive a criação de novos mercados produtores e também de tecnologias que garantam a disponibilidade das espécies à altura da produção comercial”, explicou.
Com a fase de levantamento concluída, os detalhes técnicos e os potenciais econômicos de cada espécie serão divulgados junto a produtores e empresários. De acordo com Coradin, o trabalho contará com o lançamento de cinco publicações, cada uma representando uma região do país, no segundo semestre.
“Temos a maior biodiversidade do planeta, capacidade técnica instalada e competência em recursos humanos, mas ainda falta articulação entre pequenos produtores, empresários e instituições de pesquisa”, afirmou o engenheiro agrônomo.
Além de incentivar essa articulação e atrair novos investimentos ao setor, os livros servirão de base para diferenciar plantas prontas para serem exploradas pelo setor empresarial e as que ainda precisam de alguma atividade de pesquisa.
A lista completa das espécies, que foram divididas por grupos de uso – como ornamentais, alimentícias e frutíferas, fibrosas, medicinais, aromáticas e adequadas para a fabricação de óleos – será publicada no início de fevereiro no site do MMA, que planeja ainda uma série de seminários regionais para apresentar potencialidades desses recursos naturais aos diferentes segmentos da sociedade.
Falta de cultura de valorização
Há vários exemplos de valorização externa antes da interna. Lídio Coradin lembra que empresários da Nova Zelândia produzem atualmente sucos, biscoitos, geléias, óleos e até espumante com uma fruta nativa do Brasil: a goiaba serrana (Acca seloviana). “Mais de 20 produtos já foram lançados. Esse é um exemplo típico de planta que foi negligenciada ou subutilizada no Brasil e está gerando riqueza em outro país, apesar de ser conhecida nacionalmente há mais de 50 anos”, disse.
Além da goiaba serrana, a pupunheira (Bactris gasipaes), uma palmeira de clima tropical em que todas as partes podem ser aproveitadas economicamente, em especial seu fruto (pupunha) e o palmito, é outra espécie de interesse que integra a lista.
“Ela é uma das plantas mais versáteis, chegando a produzir cinco toneladas de palmito por hectare sem necessidade de eliminar suas mudas, como ocorre normalmente com outras espécies”, disse Coradin. Várias hastes de palmito são produzidas em uma mesma muda, o que permite a colheita enquanto a planta produz novas hastes.
Segundo o coordenador da área de Recursos Genéticos da Secretaria de Biodiversidade e Florestas do MMA, um único fruto de pupunha chega a produzir 16% de proteína, o que o torna viável para a produção de bolos e tortas em substituição ao trigo, além de poder ser frito e servido como aperitivo. A produção de biodiesel também seria outra aplicação viável.
“Vários estudos comprovam que a pupunheira é capaz de gerar quase 20 toneladas de óleo por hectare para a produção do biodiesel. A soja, que não é uma cultura nativa do Brasil, produz apenas 500 litros de óleo por hectare”, compara.
Açaí (Euterpe oleracea), cupuaçu (Theobroma grandiflorum), bacuri (Platonia insignis), murici (Byrsonima sericeae) e camu-camu (Myrciaria dubia) são algumas espécies que também fazem parte da lista.
“Algumas delas já estão sendo exportadas, como o açaí e o cupuaçu. Mas ainda precisamos criar uma cultura de valorização do que é produzido em território nacional. É só olhar para a maioria dos hotéis brasileiros, por exemplo, que preferem servir frutas exóticas ou não nativas do Brasil, como melão, kiwi, melancia ou mamão”, afirma Coradin.
Agronegócio já exporta mais à Ásia que ao Nafta
10/01/07 - Um novo mapa se desenha nas exportações do agronegócio brasileiro. Entre 2000 e 2006 a Ásia cresceu e superou o Nafta entre os principais blocos de destino, chegando ao segundo lugar no ranking, atrás da União Européia. No mesmo período, o Oriente Médio também ultrapassou outro concorrente, o Mercosul, e hoje é o quarto maior comprador dos produtos do campo brasileiro.
"O Brasil melhorou o leque de destinos", diz Matheus Zanella, assessor-técnico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), que analisou os dados da balança comercial do agronegócio. No período, os blocos de países emergentes elevaram a participação entre os destinos, enquanto os dos desenvolvidos reduziram. Produtos como soja, açúcar e carnes explicam a mudança. Além disso, em 2000 o campo exportava para 182 países e hoje, para 214.
Neila Baldi
Fonte: Gazeta Mercantil
da Agência de Notícia UDOP
"O Brasil melhorou o leque de destinos", diz Matheus Zanella, assessor-técnico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), que analisou os dados da balança comercial do agronegócio. No período, os blocos de países emergentes elevaram a participação entre os destinos, enquanto os dos desenvolvidos reduziram. Produtos como soja, açúcar e carnes explicam a mudança. Além disso, em 2000 o campo exportava para 182 países e hoje, para 214.
Neila Baldi
Fonte: Gazeta Mercantil
da Agência de Notícia UDOP
Estratégia do governo impede crescimento do biodiesel no país
Apontado por especialistas como o futuro da produção de combustíveis, o biodiesel enfrenta, no Brasil, um problema estratégico: a forma de produção.
Compromisso de campanha do primeiro governo Lula (PT), a produção familiar dos componentes do biodiesel, em especial no Norte e Nordeste, foi incentivada pelo governo, com reduções que chegam a 100% de encargos como PIS/Pasep para as empresas que comprem matéria-prima da agricultura familiar.
A lei brasileira determina que, até 2008, todo o óleo diesel consumido no país seja composto por uma mistura de 2% de biodiesel e 98% de diesel de petróleo, o que gera um mercado estimado em 800 milhões de litros anuais. Entretanto, a produção familiar não alcança, hoje, os 50 milhões de litros.
“A opção pela agricultura familiar é importante, mas se limita a um complemento. Jamais vai atingir os números necessários para suprir o mercado nacional”, afirma Carlos Freitas, engenheiro especialista no assunto.
Segundo o governo federal, para suprir a demanda, nos atuais moldes, será necessário que 1,5% da área agricultável do país seja dedicada a matérias-primas para o biodiesel, condição que parece difícil de ser preenchida pela agricultura familiar, que ocupa, hoje, apenas 0,25% do total das áreas.
Piauí é exemplo negativo
No Piauí, cuja experiência de produção de mamona em assentamento foi a primeira do Brasil, há muitas queixas dos assentados, que, para dar conta da produção e ter retorno financeiro, estão virando monoprodutores.
Em lugar de manter sua diversidade de produção, como idealizado pelo governo, eles estão produzindo apenas mamona.
O rendimento médio mensal para os monocultores chega a R$ 3,5 mil. Já os policultores não conseguem mais que R$ 1,5 mil.
“Não temos muitas alternativas. Precisamos produzir e o único caminho é plantar só mamona”, afirma Cláudio Souza, agricultor piauiense, à Agência Brasil.
Álcool aposta na indústria
O domínio brasileiro da fabricação de álcool de cana-de-açúcar, ao contrário do biodiesel, aconteceu por uma aposta na escala industrial de cultivo para a formação de mercado.
No final da década de 1960 e começo da de 70, com o Pró-Álcool, o governo influenciou diretamente, por meio de subsídios, a produção e a distribuição de álcool em parceria com grandes proprietários que apostaram na monocultura intensiva de cana.
“O governo fez a opção que deu ao país o domínio do processo de fabricação. Não é o único, mas não pode ser desprezado”, diz Carlos César Borges, da logística da Secretaria de Agricultura.
Eduardo Schiavoni - 08/01/2007
Fonte: Bom Dia Rio Preto
Agência UDOP de Notícias
Compromisso de campanha do primeiro governo Lula (PT), a produção familiar dos componentes do biodiesel, em especial no Norte e Nordeste, foi incentivada pelo governo, com reduções que chegam a 100% de encargos como PIS/Pasep para as empresas que comprem matéria-prima da agricultura familiar.
A lei brasileira determina que, até 2008, todo o óleo diesel consumido no país seja composto por uma mistura de 2% de biodiesel e 98% de diesel de petróleo, o que gera um mercado estimado em 800 milhões de litros anuais. Entretanto, a produção familiar não alcança, hoje, os 50 milhões de litros.
“A opção pela agricultura familiar é importante, mas se limita a um complemento. Jamais vai atingir os números necessários para suprir o mercado nacional”, afirma Carlos Freitas, engenheiro especialista no assunto.
Segundo o governo federal, para suprir a demanda, nos atuais moldes, será necessário que 1,5% da área agricultável do país seja dedicada a matérias-primas para o biodiesel, condição que parece difícil de ser preenchida pela agricultura familiar, que ocupa, hoje, apenas 0,25% do total das áreas.
Piauí é exemplo negativo
No Piauí, cuja experiência de produção de mamona em assentamento foi a primeira do Brasil, há muitas queixas dos assentados, que, para dar conta da produção e ter retorno financeiro, estão virando monoprodutores.
Em lugar de manter sua diversidade de produção, como idealizado pelo governo, eles estão produzindo apenas mamona.
O rendimento médio mensal para os monocultores chega a R$ 3,5 mil. Já os policultores não conseguem mais que R$ 1,5 mil.
“Não temos muitas alternativas. Precisamos produzir e o único caminho é plantar só mamona”, afirma Cláudio Souza, agricultor piauiense, à Agência Brasil.
Álcool aposta na indústria
O domínio brasileiro da fabricação de álcool de cana-de-açúcar, ao contrário do biodiesel, aconteceu por uma aposta na escala industrial de cultivo para a formação de mercado.
No final da década de 1960 e começo da de 70, com o Pró-Álcool, o governo influenciou diretamente, por meio de subsídios, a produção e a distribuição de álcool em parceria com grandes proprietários que apostaram na monocultura intensiva de cana.
“O governo fez a opção que deu ao país o domínio do processo de fabricação. Não é o único, mas não pode ser desprezado”, diz Carlos César Borges, da logística da Secretaria de Agricultura.
Eduardo Schiavoni - 08/01/2007
Fonte: Bom Dia Rio Preto
Agência UDOP de Notícias
Agricultura familiar abastecerá fábrica de biodiesel
A produção de matéria-prima para abastecer a planta de biodiesel que a Petrobras está construindo em Candeias foi centro das discussões da reunião realizada hoje (5) entre o superintendente de Agricultura Familiar da Secretaria da Agricultura, Ailton Florêncio, e representantes da estatal. Pelo menos metade do suprimento da unidade, com capacidade de produzir 50 mil toneladas de biocombustível ao ano, será adquirido dos agricultores familiares. A Seagri entra como parceira neste processo, através da articulação com outras secretarias de Estado e instituições de pesquisa e extensão para organizar, mobilizar e assistir os produtores.
“Para o secretário Geraldo Simões, o cultivo de grãos voltado para produção de biodiesel é uma das diretrizes prioritárias no âmbito da agricultura familiar”, diz Florêncio. Ele informa que a superintendência de Agricultura Familiar terá uma coordenação específica para tratar do biodiesel. “Consideramos que esta é uma grande oportunidade para elevação da renda e melhoria da qualidade de vida dos agricultores familiares, especialmente do semi-árido e região da lavoura cacaueira, áreas que sofrem com a pobreza e a crise econômica”, diz Florêncio.
Amendoim, mamona, dendê, algodão, girassol e pinhão-manso estão entre as alternativas de cultivo pelos pequenos agricultores para gerar matérias-primas a serem utilizadas na produção de biocombustível pela Petrobras. A unidade, cujas obras de terraplenagem começam ainda este mês, vai consumir, anualmente, 50 mil litros de óleo vegetal e produzir a mesma quantidade em forma de biocombustível.
A estimativa da Petrobras é que cerca de 25 mil famílias de agricultores serão beneficiadas na Bahia com a implantação da fábrica. Segundo os representantes da empresa George Mendes, responsável pela planta de Candeias, e José Maria Dutra e Humberto Guanaes, que cuidam do suprimento da unidade, já está garantido que agricultura familiar vai suprir a fábrica com até 50% de matéria-prima. Eles adiantam ainda que a cota pode ser maior, de acordo com a capacidade de produção dos agricultores e aumento do percentual de biodiesel na composição dos combustíveis.
Fonte: Jornal da Mídia - Nacional
Agência UDOP de Notícias
“Para o secretário Geraldo Simões, o cultivo de grãos voltado para produção de biodiesel é uma das diretrizes prioritárias no âmbito da agricultura familiar”, diz Florêncio. Ele informa que a superintendência de Agricultura Familiar terá uma coordenação específica para tratar do biodiesel. “Consideramos que esta é uma grande oportunidade para elevação da renda e melhoria da qualidade de vida dos agricultores familiares, especialmente do semi-árido e região da lavoura cacaueira, áreas que sofrem com a pobreza e a crise econômica”, diz Florêncio.
Amendoim, mamona, dendê, algodão, girassol e pinhão-manso estão entre as alternativas de cultivo pelos pequenos agricultores para gerar matérias-primas a serem utilizadas na produção de biocombustível pela Petrobras. A unidade, cujas obras de terraplenagem começam ainda este mês, vai consumir, anualmente, 50 mil litros de óleo vegetal e produzir a mesma quantidade em forma de biocombustível.
A estimativa da Petrobras é que cerca de 25 mil famílias de agricultores serão beneficiadas na Bahia com a implantação da fábrica. Segundo os representantes da empresa George Mendes, responsável pela planta de Candeias, e José Maria Dutra e Humberto Guanaes, que cuidam do suprimento da unidade, já está garantido que agricultura familiar vai suprir a fábrica com até 50% de matéria-prima. Eles adiantam ainda que a cota pode ser maior, de acordo com a capacidade de produção dos agricultores e aumento do percentual de biodiesel na composição dos combustíveis.
Fonte: Jornal da Mídia - Nacional
Agência UDOP de Notícias
Produção de biodiesel vai quadruplicar
Investimentos de 52 novas usinas para os próximos dois anos somam cerca de R$ 800 milhões. O Brasil tem hoje projetos para produção diária de 9 milhões de litros de biodiesel, que vão demandar investimentos de R$ 800 milhões nos próximos dois anos, segundo estimativas da Safras & Mercado. O montante é mais de quatro vezes superior que a capacidade instalada hoje, sob a autorização da Agência Nacional de Petróleo (ANP), que é de 1,95 milhão de litros.
Do total de projetos previsto pelo mercado, 23 pedidos, que juntos estimam produzir 4,044 milhões de litros diários, já estão protocolados na Agência à espera de autorização para produzir.
Só de São Paulo são dez, que somam produção 1,2 milhão de litros por dia. O Rio Grande do Sul vem em segundo lugar com três projetos que reúnem capacidade de 820 mil litros, seguido por Goiás, com 708 mil litros por dia.
O estado de Mato Grosso, maior produtor nacional de soja, tem atualmente duas plantas de produção de biodiesel instaladas e autorizadas pela ANP. Juntas, somam o processamento de 186 mil litros diários e utilizam a oleaginosa na produção. Mais três aguardam autorização. Um de 80 mil litros e outros dois, de 10 mil litros cada.
O restante dos projetos totais previstos para o país está em "estado de espera", segundo o economista e analista de Biodiesel da Safras e Mercados, Miguel Biegai. Um dos motivos é a expectativa de que o governo federal aumente o incentivo do Selo Social, que reduz a incidência de Pis e Cofins na produção do biodiesel, proporcionalmente ao uso de matéria-prima adquirida da agricultura familiar.
Mas, segundo ele, a latência desses projetos está também ligada ao efeito psicológico da inviabilidade momentânea do negócio por conta da disparada do preço do óleo de soja, matéria-prima prevista para ser utilizada em cerca de 80% dos projetos, conforme estima Biegai.
Para a produção de biodiesel ser viável, o preço da tonelada do óleo de soja não pode ultrapassar R$ 1,4 mil, valor que está hoje em torno de R$ 1,6 mil. "Além disso, existe a condição de preço do barril do petróleo que tem que ser inferior a US$ 55", complementa Biegai.
Para ele, a dependência do óleo de soja já pode ser encarada como fator preocupante nesse mercado. "Temos disponíveis outros 40 produtos, entre os de origem vegetal e animal. O setor terá que acelerar a busca por diversificação", diz. O especialista explica que existem variedades alternativas à soja, como o pinhão-manso, por exemplo. Este tem características mais vantajosas, no entanto, é preciso transformá-lo em cultura comercial, na opinião do analista. Atualmente, a área plantada do pinhão no país é inferior a 20 hectares. E, para se implantar projetos contando com essa matéria-prima é preciso ter conhecimento da cultura, sobretudo de doenças e pragas que podem surgir em áreas de grande cultivo e comprometer a oferta mais à frente, conforme alerta o especialista.
Outros produtos, além da soja, têm, em níveis diferentes, informações de cultivo resultantes de pesquisas. "Entre eles, a canola, o nabo forrageiro, o girassol, a palma e a mamona", cita o especialista.
Os pedidos em trâmite na ANP informam a utilização de matérias-primas diversas, como sebo bovino, girassol e babaçu. No entanto, a preponderância é dos óleos de soja.
A Agência mantém o sigilo dos proponentes dos projetos e não estima quanto tempo essas plantas estarão em funcionamento. Mas, segundo o superintendente de Abastecimento da ANP, Roberto Ardenghy, esse processo pode demandar de 30 dias até um ano, conforme a qualidade da documentação apresentada. O superintendente ressalta que, normalmente, não há a aprovação da capacidade total pleiteada nos pedidos. "Geralmente, autorizamos 70% do projeto", estima.
08/01/2007
Informações da Gazeta Mercantil
AGÊNCIA DE NOTÍCIAS AMBIENTAIS - ECOPRESS
Do total de projetos previsto pelo mercado, 23 pedidos, que juntos estimam produzir 4,044 milhões de litros diários, já estão protocolados na Agência à espera de autorização para produzir.
Só de São Paulo são dez, que somam produção 1,2 milhão de litros por dia. O Rio Grande do Sul vem em segundo lugar com três projetos que reúnem capacidade de 820 mil litros, seguido por Goiás, com 708 mil litros por dia.
O estado de Mato Grosso, maior produtor nacional de soja, tem atualmente duas plantas de produção de biodiesel instaladas e autorizadas pela ANP. Juntas, somam o processamento de 186 mil litros diários e utilizam a oleaginosa na produção. Mais três aguardam autorização. Um de 80 mil litros e outros dois, de 10 mil litros cada.
O restante dos projetos totais previstos para o país está em "estado de espera", segundo o economista e analista de Biodiesel da Safras e Mercados, Miguel Biegai. Um dos motivos é a expectativa de que o governo federal aumente o incentivo do Selo Social, que reduz a incidência de Pis e Cofins na produção do biodiesel, proporcionalmente ao uso de matéria-prima adquirida da agricultura familiar.
Mas, segundo ele, a latência desses projetos está também ligada ao efeito psicológico da inviabilidade momentânea do negócio por conta da disparada do preço do óleo de soja, matéria-prima prevista para ser utilizada em cerca de 80% dos projetos, conforme estima Biegai.
Para a produção de biodiesel ser viável, o preço da tonelada do óleo de soja não pode ultrapassar R$ 1,4 mil, valor que está hoje em torno de R$ 1,6 mil. "Além disso, existe a condição de preço do barril do petróleo que tem que ser inferior a US$ 55", complementa Biegai.
Para ele, a dependência do óleo de soja já pode ser encarada como fator preocupante nesse mercado. "Temos disponíveis outros 40 produtos, entre os de origem vegetal e animal. O setor terá que acelerar a busca por diversificação", diz. O especialista explica que existem variedades alternativas à soja, como o pinhão-manso, por exemplo. Este tem características mais vantajosas, no entanto, é preciso transformá-lo em cultura comercial, na opinião do analista. Atualmente, a área plantada do pinhão no país é inferior a 20 hectares. E, para se implantar projetos contando com essa matéria-prima é preciso ter conhecimento da cultura, sobretudo de doenças e pragas que podem surgir em áreas de grande cultivo e comprometer a oferta mais à frente, conforme alerta o especialista.
Outros produtos, além da soja, têm, em níveis diferentes, informações de cultivo resultantes de pesquisas. "Entre eles, a canola, o nabo forrageiro, o girassol, a palma e a mamona", cita o especialista.
Os pedidos em trâmite na ANP informam a utilização de matérias-primas diversas, como sebo bovino, girassol e babaçu. No entanto, a preponderância é dos óleos de soja.
A Agência mantém o sigilo dos proponentes dos projetos e não estima quanto tempo essas plantas estarão em funcionamento. Mas, segundo o superintendente de Abastecimento da ANP, Roberto Ardenghy, esse processo pode demandar de 30 dias até um ano, conforme a qualidade da documentação apresentada. O superintendente ressalta que, normalmente, não há a aprovação da capacidade total pleiteada nos pedidos. "Geralmente, autorizamos 70% do projeto", estima.
08/01/2007
Informações da Gazeta Mercantil
AGÊNCIA DE NOTÍCIAS AMBIENTAIS - ECOPRESS
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